


UM TOQUE DE PAIXO

HOLIDAY CONFESSIONS

Anne Marie Winston



	

Ao conhecer o msculo e sedutor Brendan Reiliy, um homem sem interesses ocultos, a ex-modelo Lynne DeVane finalmente se sente  tentada a retirar a mscara que usou por tanto tempo e mostrar quem ela  de verdade.

Ele nunca viu o rosto dela ...
E mesmo assim, a entendia melhor do que qualquer outro.
Brendan queria confiar nela, mas a vida havia lhe ensinado a manter distncia das mulheres misteriosas... E se Lynne realmente desejava Brendan, teria de provar seu amor.


                                        Digitalizao: Ana Cris
                                          Reviso: Ana Ribeiro







UM TOQUE DE PAIXO

Traduo Oliveira Jr.

HARLEQUIN  BOOKS
2007
PUBLICADO SOB ACORDO COM HARLEQUIN ENTERPRISES H B.
Todos os direitos reservados. Proibida a reproduo, o armazenamento ou a transmisso, no todo ou em parte.
Todos os personagens desta obra so fictcios. Qualquer semelhana com pessoas vivas ou mortas  mera coincidncia.
Ttulo original: HOLIDAY CONFESSIONS
Copyright (c) 2006 by Anne Marie Rodgers
Originalmente publicado em 2006 por Silhouette Desire
Editorao Eletrnica: ABREITS SYSTEM Tel.: 2220-3654/2524-8037
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CAPTULO UM



LYNNE DeVane acabara de deixar no corredor mais algumas das caixas usadas na mudana quando ouviu um estrondo, seguido por diversas palavras criativas e vividas. J conhecera muitas pessoas rudes, mas nunca ouvira aquela combinao especfica de palavras.
Largou as caixas e saiu apressada para o corredor do adorvel prdio de tijolos aparentes em Gettysburg, Pensilvnia, no qual acabara de alugar um apartamento. Havia caixas espalhadas por toda parte  volta de um homem - um homem grande - que estava se levantando e sacudindo a poeira de suas calas escuras. Havia um golden teriever perto do homem, cheirando-o, aparentando preocupao.
- Meu Deus, desculpe - comeou Lynne.
- No desculpo no. - O homem interrompeu-a no meio da frase, olhos azuis dirigidos para o seu co, em vez de para ela. - O corredor no  depsito de lixo.
Lynne ficou to estarrecida com a brusca resposta que nem soube o que dizer. E antes que as palavras certas lhe ocorressem, o homem tateou em busca do portal da porta aberta diretamente em frente  de Lynne.
- Feather, venha. - O homem no olhou para trs, mas Lynne ficou mais preocupada ao v-lo atrapalhar-se por um segundo com a maaneta.
- Ei, espere! Est se sentindo bem? Bateu a cabea?
Muito devagar, ele se virou para encar-la enquanto o cachorro entrava no apartamento.
- No, eu no bati a cabea. Bati com a porcaria do meu joelho, e ralei a palma da mo e o cotovelo, mas no precisa se preocupar, porque no vou process-la.
- Eu... O problema no  esse. - Ela estava desconcertada com a atitude agressiva daquele homem. -  que voc pareceu tonto ou desorientado, e fiquei preocupada.
- Estou bem. - Agora a voz dele parecia levemente cansada. - Obrigado pela preocupao.
Enquanto o homem virava a maaneta e dava um passo cauteloso, Lynne percebeu uma coisa: seu novo vizinho era cego. Ou, no mnimo, portador de uma sria deficincia visual.
O homem desapareceu no interior do apartamento  a porta se fechou com um clique alto.
Decerto essa no era a melhor maneira de comear um relacionamento com seu vizinho mais prximo. Pegou as caixas que causaram o problema e arrastou-as pela escada de servio at os fundos do prdio, onde havia uma lixeira de reciclagem de papelo. Lynne jamais teria deixado caixas no corredor se soubesse que tinha um vizinho deficiente visual.
Apesar da vergonha que sentiu, Lynne notou que seu vizinho era muito bonito, com cabelos negros e cacheados, feies msculas e uma covinha funda no queixo quadrado. O co ficara preocupado com ele, e Lynne considerou que talvez fosse um guia. Mas, se era, por que no o guiara? E por que o homem no estava com uma bengala? Bem, talvez ele no fosse cego, apenas desajeitado.
Mas no fazia diferena se o vizinho era cego ou no. Ela lhe devia desculpas.
Com biscoitos, decidiu. Poucos homens continuariam com raiva depois de provar os biscoitos amanteigados de sua av, uma receita de famlia passada a Lynne no dia em que se formara no ensino mdio. Ironicamente, as duas no sabiam que levaria quase dez anos at que Lynne pudesse voltar a comer biscoitos.
Ela subiu para se preparar para uma segunda viagem at a lixeira de reciclagem. Talvez seu vizinho sasse do apartamento, dando-lhe mais uma chance de pedir desculpas. Mas a porta em frente  sua estava fechada, e parecia propensa a permanecer assim.
Depois de descer pela quarta vez, Lynne fez uma pausa e pendurou o enorme espelho com moldura em mogno de sua av acima do bufete da sala de jantar. Ao recuar para admirar o espelho, Lynne ficou surpresa com a estranha que apareceu no reflexo.
A pessoa que ela viu era uma mulher esbelta, com cabelos louros amarrados num coque. A mulher que ela subconscientemente esperara ver tinha cabelos ruivos cortados em camadas e era magra. No apenas esbelta, mas muito, muito magra. E no estaria usando calas jeans desbotadas e camisa de malha, mas alguma coisa sada da coleo de outono de um estilista famoso.
Havia mais de um ano desde que Lynne desistira de sua bem-sucedida carreira de modelo. A hora escolhida fora um verdadeiro suicdio profissional. Mesmo se mudasse de idia e quisesse voltar, havia fechado completamente todas as portas. Tomara a deciso logo depois de terminar sua primeira sesso de fotos para a Sports Illustrated. O nico lugar para ir a partir da teria sido para cima, mas ela optara por sair.
- Mas por qu?-perguntara frustrado seu agente, Edwin. - Querida, voc  a modelo mais promissora desde Elle MacPherson. Voc pode ficar muito famosa. - Ele desenhara um outdoor no ar. - A'Lynne. Apenas um nico nome. O rosto da... Clinique, ou da Victoria's Secret, alguma coisa grande assim. Por que quer desistir?
- No estou feliz, Ed - respondera.
Estava farta de voar de um fim do mundo para outro para ser fotografada nas guas frias de alguma praia. De passar o tempo todo vigiando o peso. De freqentar festas por obrigao.
Quando um dos produtores da Sports Illustrated a fotografara e comentara criticamente: "Menina, voc devia perder uns dois quilos", ela decidiu que aquilo passara dos limites. J era magra demais para uma mulher de quase l,80m.
Ela nem tinha mais certeza de qual era a cor natural de seus cabelos. Como a maioria de suas colegas,Lynne usava um penteado e uma colorao de cabelo de acordo com sua imagem pblica. Contudo, ao contrrio de muitas modelos, no era bulmica, entupindo-se de comida para vomitar tudo em seguida. Era anorxica? Se no fosse modelo, provavelmente no iria se sentir compelida a comer to pouco. Mas estava determinada a descobrir.
- Voc pode no ser feliz, mas  famosa - dissera Ed. - E muitssimo bem paga. Quem precisa de felicidade quando  milionria?
Lynne sentiu um arrepio s de pensar que um dia poderia tornar-se to cnica quanto Ed.
- No quero mais viver assim. Eu no vou viver mais assim. No vou aceitar mais trabalhos. Vou cumprir meus contratos e, ento, parar.
- Mas o que voc vai fazer da sua vida? - perguntara Ed, absolutamente perplexo. No mundo de Ed, as nicas coisas importantes eram fama e riqueza.
- Ser feliz - respondera simplesmente. - Ser uma pessoa comum, com preocupaes e horrios comuns. Comer o que bem entender. Fazer servios voluntrios, freqentar a igreja. Ser uma pessoa importante por causa do bem que faz ao mundo, no porque as roupas mais estranhas do planeta caem bem em seu corpo.
Sim, definitivamente fechara todas as portas. Desistira do A que sua me acrescentara ao seu nome e passara a usar seu sobrenome verdadeiro em vez do nome de solteira da me. A'Lynne Frasier estava morta, mas Lynne DeVane estava viva e bem.
Voltara para a casa da me, na Virgnia, onde ganhara peso suficiente para no mais parecer uma recm chegada de um campo de concentrao. Seus cabelos mais uma vez estavam compridos e lisos, embora fosse seu hbito us-los quase sempre amarrados num coque. Sem maquiagem e com os cabelos em seu louro natural, at agora conseguira no ser reconhecida, evitando o assdio da imprensa.
Depois de um ano, decidira que para manter a sanidade teria de achar um lugar prprio para morar. Escolhera Gettysburg porque ficava a pouco mais de uma hora da casa de sua irm.
Com sorte, enfiada numa cidadezinha nas montanhas da Pensilvnia, Lynne conseguiria permanecer despercebida.
Desceu com mais uma pilha de caixas de papelo, as quais amassou antes de depositar na lixeira. Talvez tivesse uma chance se no esbarrasse com nenhum leitor fantico da Sports Illustrated.
Depois da stima viagem comeou a ficar cansada. Assim, subiu os degraus da varanda para desfrutar de alguns minutos do ar puro de uma cidade pequena. Julgava-se em forma, mas as escadas pareciam mais longas a cada subida.
- At parece que as caixas esto se multiplicando - resmungou enquanto tentava recuperar o flego.- Eu no sabia que tinha tanta tralha.
- Eu vou tropear de novo em voc ou nas suas coisas?
Assustada ao ouvir a voz grave, Lynne girou nos calcanhares. Seu vizinho resmungo acabara de abrir a porta. Sua mo esquerda agora segurava o pegador de uma guia de couro, mas o co na coleira no era o golden retriever que ela vira antes. Este era grande, preto e mais pesado. O homem segurava com firmeza o pegador de metal da guia. Tivera razo ao suspeitar que ele era cego. Lynne levantou-se, abrindo a boca para pedir desculpas de novo. E, ento, notou que ele estava sorrindo. S agora percebeu que seu tom no fora zangado, mas dotado de um humor sarcstico.
- Desculpe. S estou tomando um pouco de ar. Essas escadas esto me deixando com vontade de adicionar mais alguns quilmetros  minha corrida matinal.
- Ainda bem que no  um arranha-cu - disse ele com uma risadinha.
- No gosto nem de pensar. Mas, se fosse, haveria um elevador. - Respirou fundo. - Sinto muito pelas caixas. Voc deve ter reparado que eu as tirei do caminho.
- Reparei. - Ele sorriu de novo, revelando dentes brancos e impecveis.
Lynne ficou levemente chocada  sua reao instantnea quele sorriso de bad boy. Ele a convidava a sorrir tambm, a dizer alguma piadinha. Era um sorriso que fazia daquele homem um dos mais sensuais que ela j conhecera. E contrastava imensamente com seu comportamento anterior.
-Tambm sinto muito-disse ele.-No costumo ser to rude e mal-humorado. E agora sei que no devo sair do apartamento sem meus olhos de confiana.
- Desculpas aceitas - disse ela. Lynne olhou para o co. - Voc tingiu seu cachorro para combinar com suas roupas, ou algo assim?
Ele levantou as sobrancelhas e riu. Inclinou a cabea na direo do cachorro parado pacientemente ao seu lado.
- Este  Cedar, meu guia. O cachorro que estava comigo na hora do almoo era Feather, minha guia aposentada. Eu estava descendo para pegar minhas cartas.
- Pensava que o certo  usar uma bengala quando no estiver com seu cachorro. - Lynne no sabia qual era o protocolo para falar sobre a deficincia fsica de uma pessoa, mas como ele ja gritara com ela uma vez, o que poderia acontecer de pior?
Ele abriu um sorriso humilde.
- Bem,  muito trabalhoso botar a coleira em um cachorro. Em geral no fao isso para caminhadas curtas. Deveria levar minha bengala, mas as caixas de correio ficam bem no p das escadas. Como posso me guiar pelo corrimo, costumo trapacear. - Estendeu a mo direita. - Brendan Reilly.  minha nova vizinha?
-  Sou. - Apertou a mo de Brendan. - Lynne DeVane.  um prazer conhec-lo. - Era realmente um prazer. A mo dele era grande e quente. Quando aqueles dedos fecharam-se com firmeza em torno dos de Lynne, ela chegou a sentir falta de ar. - Tambm  um prazer conhecer voc, Cedar - apressou-se em acrescentar. Ele pareceu relutar antes de soltar a mo de Lynne.
- J est terminando a mudana?
Ela fez que sim com a cabea antes de lembrar que ele no podia v-la.
- Sim. J estou com tudo dentro de casa. E tenho s mais umas seis caixas para abrir.
- S? - Ele balanou a cabea, e ela ficou impressionada com a naturalidade do movimento. Ela podia apostar que ele no era cego de nascena.
- Mais algumas horas e terei acabado - garantiu Lynne. - Mal posso esperar!
- Se eu fosse um sujeito realmente bom, iria me oferecer para ajud-la. - Ele sorriu de novo. - Infelizmente, no sou to bonzinho assim. Preciso voltar ao trabalho.
- Voc estava na sua hora do almoo? Ele fez que sim.
- Vim para casa soltar a Feather e lhe dar um pouco de ateno. Sou advogado. Trabalho em um escritrio a alguns quarteires daqui.
- Que bom que  to perto.
-  conveniente, porque posso ir e voltar sem precisar que ningum me leve de carro.
- Tambm gosto daqui - disse ela. - Estava procurando um lugar afastado da cidade e gostei daqui porque no  completamente rural.
- Que cidade?
- Nova York. Eu morava num apartamento em Manhattan.
- Ai! Esses lugares no so baratos.
- Parece que voc j sentiu isso na pele.
- Fiz Direito na Columbia School of Law - disse com um aceno de cabea. - Eu dividia um apartamento no Upper West Side com trs outros estudantes de advocacia, e mesmo assim o aluguel era um roubo.
Ela fez que sim, e ento lembrou de novo que ele no podia v-la. Ela jamais iria se habituar quela situao. Tambm era um pouco chocante perceber o tamanho do papel que a linguagem corporal desempenhava em suas interaes.
- Voc pode repetir isso. No percebi o quanto era caro at comear a procurar um apartamento em Gettysburg. Gosto muito mais daqui.
-  uma tima cidadezinha. Decidiu vir para c por algum motivo especial?
- Na verdade, no. - Lynne no queria contar a ningum a respeito de sua vida antiga. - Conheci Gettysburg numa excurso de escola, quando era menina. Vim ver se ainda era como eu lembrava. Quando vi que a cidade no havia mudado nada, comecei a procurar um apartamento.
- Tem sorte de ter encontrado este. Apartamentos bons assim no aparecem a toda hora. O inquilino anterior era um solteiro que morou aqui por quase trinta anos.
- Quem sabe? Talvez eu mesma acabe passando trinta anos aqui. - Ela pigarreou. - Bem, no vou prender voc. Foi um prazer conhec-lo.
- Todo meu. Boa sorte com o resto das caixas.
- Prometo que no vou deix-las no corredor - disse com uma risadinha.
- Eu no teria cado se estivesse acompanhado por um co-guia - comentou enquanto se virava para a direo da rua. - Tenha uma boa tarde.
- Obrigada. - Ela quase acenou para ele, mas se conteve a tempo.
- Cedar, em frente - disse Brendan ao co.
Ela observou Brendan caminhar com confiana at o fim do quarteiro e atravessar a rua at a pracinha. Tentou imaginar como ele teria perdido a viso. Brendan possua muitos hbitos de uma pessoa que j fora capaz de enxergar, como a forma como estendera a mo com confiana para cumpriment-la, ou a maneira como parecia olhar seu rosto enquanto falava. Se Lynne no soubesse que ele era cego, teria jurado que ele estava olhando bem em seus olhos.
Lembrou dos biscoitos que planejara assar. Ainda iria faz-los, embora ele parecesse ter aceitado suas desculpas.

Naquela noite, Brendan estava checando sua correspondncia quando ouviu a campainha. Feather e Cedar, deitados em lados opostos de sua cadeira no escritrio, levantaram-se subitamente, embora nenhum tenha latido. Cedar correu at a porta, mas Feather permaneceu com o dono. Brendan apoiou uma das mos na cabea de Feather enquanto se levantava, virava-se e caminhava pelo escritrio.
- Voc  uma boa menininha - disse Brendan baixinho enquanto atravessava o corredor e a sala de estar. Ao chegar  porta, perguntou: - Quem ?
A cauda grossa de Cedar bateu contra a frente da perna direita de Brendan enquanto Feather simplesmente aguardava  esquerda dele.
- Lynne. Sua vizinha.
Ela no precisava ter dito isso, Brendan teria lembrado dela instantaneamente. Para no mencionar da maciez de sua mo e de sua voz agradavelmente rouca.
Esquea, Brendan. Voc no est interessado.
Era muito mais fcil dizer isso a si mesmo do que acreditar.
- Oi - disse ele, abrindo a porta. - No esperava v-la de novo hoje.
- Eu lhe trouxe uma oferenda de paz.
Ele ouviu um farfalhar de papel alumnio e, ento, um aroma maravilhoso invadiu suas narinas.
- O que  isso? - perguntou, aspirando profundamente. - Que cheiro delicioso.
- Biscoitos amanteigados de chocolate e manteiga de amendoim - disse Lynne. - Receita de minha av.                                                               
- Voc no precisava ter feito isso - disse ele.
- Eu sei. Mas realmente sinto muito por ter deixado aquelas caixas no corredor. Alm disso, precisava de uma boa desculpa para fazer estes biscoitos.
Ele riu.
- Se o sabor for to bom quanto o aroma, posso entender completamente voc. Quer entrar?
- No, eu...
- Por favor. Eu pretendo atacar imediatamente esses biscoitos e adoraria dividi-los com algum que diga alguma coisa alm de au-au.
Foi a vez de Lynne rir.
- Neste caso, eu ficaria deliciada.
Brendan deu um passo para o lado e aguardou at t-la ouvido entrar no apartamento.
Fechando a porta, Brendan apontou para o arranjo de sof, poltronas e mesas em sua sala de estar.
- Fique  vontade. Quer beber alguma coisa?
- Voc tem gua ou leite? Qualquer uma dessas coisas seria tima.
- No tenho leite. Quer sua gua com gelo?
- Sim, por favor.
Afinal, por que ele a havia convidado a entrar? Enquanto pegava copos de gua e guardanapos e voltava at a sala de estar, decidiu que tinha sido sua voz. Brendan sabia que qualquer relacionamento com um vizinho poderia ficar pegajoso, mas alguma coisa naquela voz sensual e rouca tinha feito com que ele esquecesse completamente disso. Pousando os copos na mesa, estendeu a mo at os descansos que deixava na mesmha de caf e colocou um debaixo de cada copo.
Ao ouvir um farfalhar de papel alumnio, deduziu que ela estava desembrulhando os biscoitos.
- Seus ces certamente so muito bem comportados - observou Lynne. - Quando criana, eu tinha uma cocker spaniel que comia qualquer coisa deixada desprotegida.
- Pelo menos ela no era um cachorro grande. Ela riu, e o som foi uma melodia adorvel que o fez sorrir em resposta.
- Bem, Ethel no se deixava intimidar por lugares altos. Ela subia em cadeiras e mesas e saltava com facilidade para o balco da cozinha. Deixava minha me louca.
Ele estava acostumado a ouvir nomes estranhos para ces. Mas...
- Ethel?
- Tnhamos Lucy, tambm. Mas Ethel era a problemtica. Todos os ces-guia so bem comportados como os seus?                
- Quase todos. Mas continuam sendo apenas ces,  claro. Sempre que eu comeo a ficar convencido de  que meu co  perfeito, ele faz alguma coisa para me lembrar que continua sendo um animal.                    
-  Eles exigem muito tempo de adestramento, no ?
- Ns apenas os treinamos para que sejam obedientes e atendam a comandos especficos. O crdito por seu comportamento agradvel  todo dos criadores de filhotes.
- Criadores de filhotes?
- As pessoas que cuidam deles quando so filhotinhos. Os criadores ensinam aos filhotes obedincia bsica e os socializam com muitas pessoas e outros animais. Eles tambm os ensinam a serem bem-educados dentro de casa.
- Como no roubar comida da mesa de seus donos.
- Ou do lixo, ou de qualquer lugar onde a vejam. Ensinar um co a no fazer essas coisas pode ser um tremendo desafio, principalmente se o co for um labrador. O co aprende a no caar gatos na casa, a no pular em cima de pessoas, a no subir na moblia...
Ela pigarreou.
- Ah, eu odeio lhe dizer isso, mas acho que tem um enorme cachorro preto deitado na sua poltrona.
Ele riu.
- No conte isso  escola de treinamento dele, por favor.
- Voc pode ter problemas por causa disso?
- No. Depois que nos tornamos parceiros de um co, esse co se torna nosso. A escola s removeria o co de um usurio se suspeitasse que ele  violento com o animal. E eu pessoalmente nunca ouvi falar de um caso desses.
- Feather no sobe nos mveis?
- Feather no sai do meu lado. Ela nunca se interessou por dormir no sof ou na cama.
- Reparei que ela entrou e saiu da cozinha com voc.
- Feather est tendo dificuldade de se ajustar  aposentadoria.
-Todos eles precisam se aposentar quando chegam a uma certa idade? Ela ainda parece bem animada.     
-Ela  bem animada, para um animal de estimao. Mas est com quase 10 anos e sofrendo de artrite. Ela estava comeando a ter dificuldade de caminhar tanto quanto eu precisava. E estava comeando a hesitar.
- Hesitar?
- A perder a confiana. Ela no queria atravessar a rua, mesmo quando no passavam carros. Um dia ela parou no meio de uma passagem de pedestres e empacou. Ainda no sei se foi por medo ou se ela simplesmente perdeu a concentrao. Mas foi nesse dia  que eu soube que precisava de um novo guia.
- Isso deve ter sido difcil.                                   
- Muito. - Ele ainda sentia dificuldade de falar sobre isso. - Fomos parceiros por mais de oito anos. Tinha a impresso de que estava me desfazendo dela. Alguns usurios ficam com seus ces aposentados, outros os devolvem  pessoa que os criou. Alguns ces so adotados por parentes ou amigos do usurio, ou por desconhecidos aprovados pela escola de adestramento. Eu achei que seria doloroso demais ficar sem ela. Mas agora... Agora no tenho certeza. - Pigarreou. - Desculpa, estou bombardeando voc com informaes.
- No se preocupe com isso. Estou achando tudo muito interessante. Coma um biscoito. Eles so mais gostosos quentes.
- Onde esto?
- Na mesinha de caf. Ah, mais ou menos  sua direita...
- Pense nos ponteiros de um relgio - disse ele.- Se estou voltado para o 12, onde estaria o prato?
- Voc est no meio do relgio ou no 6? Ele teve de sorrir. Era uma pergunta lgica.
- O meio.
- Duas da tarde - disse ela prontamente.
Ele estendeu a mo e sentiu-se gratificado quando seus dedos encontraram a beirada de um prato. Ele pegou um biscoito e o aproximou do nariz.
- No tenho certeza se vou conseguir comer isto. Eu poderia passar o resto da minha vida sentindo este cheiro.
- Posso lhe dar a receita - disse ela. - No  como se voc nunca mais fosse v-los de novo.
Ele percebeu que ela se arrependeu instantaneamente do que dissera. Houve um silncio breve.
- Puxa vida, sinto muito - disse ela. - Falei sem pensar.
- "Puxa vida?" - Ele se forou a no rir alto.
- A maioria das pessoas usa xingamentos bem mais fortes.
Ele suspeitou que ela deu com os ombros. Ento, ela disse:
-  uma mistura satisfatria de consoantes e vogais que eu posso murmurar quando estou com raiva. No gosto de usar... ou escutar... palavres.
- Puxa vida - repetiu ele. Kendra tambm no gostava de linguagem chula. Era uma das coisinhas que ele amara nela. - Funciona para mim.
De repente ele percebeu que fazia muito tempo desde a ltima vez em que pensara em sua noiva.
- Em todo caso, eu estava no meio de um pedido de desculpas - disse Lynne.
- Desculpas desnecessrias. Voc no precisa censurar seu vocabulrio.
Ele deu mais uma mordida no biscoito e fez questo de expressar com clareza seu prazer. Kendra fora a primeira mulher que Brendan amara. Eles romperam alguns meses depois que ele perdera a viso, e desde ento Brendan passara a evitar relacionamentos.
- Que bom que voc gostou dos biscoitos. Quer jantar l em casa amanh  noite? H mais de onde esses vieram.
- Obrigado, mas no?- Sua resposta foi automtica. Ele podia ter dominado a arte de comer sem ver a comida, mas ainda morria de medo de passar vergonha. - Eu tenho de cuidar dos ces e...
- Pode lev-los. Um pouco de plo de cachorro no vai arruinar minha casa.
- Voc realmente no precisa fazer isso.
- Eu quero. Na verdade, no conheo ningum aqui. Voc pode me falar a respeito da cidade.
Bem, ele podia imaginar a cidade.
- Tudo bem. A que horas?
- Seis e meia est bem?
- Sim.
- Algum pedido especial?
- Por favor, nada de espaguete. Ela riu.
- Aposto que h algumas comidas problemticas, no ? Tudo bem. Nada de espaguete, eu prometo.
Ele no conseguia identificar o sotaque dela. s vezes parecia britnico, mas, de vez em quando, ela arrastava as slabas como uma nativa do Sul dos Estados Unidos. Talvez na noite do dia seguinte ele conseguisse fazer com que ela falasse um pouco sobre si mesma. Seria uma mudana agradvel da rotina de responder a perguntas sobre sua cegueira e seus ces.
Lynne finalmente retirou a ltima caixa de mudana de sua casa nova. Em apenas dois dias, depois que a moblia chegara, ela conseguira colocar quase todas as coisas em seus devidos lugares. Por enquanto, no havia muitos quadros nas paredes, nem qualquer outra decorao pessoal.
Depois de terminar a arrumao, passou o aspirador de p na casa e foi fazer mais uma fornada de biscoitos. Decidiu preparar galinha assada com batatas, e pezinhos de aveia e mel. Depois que colocou a massa na mquina de fazer po, lavou o brcolis para cozinh-lo no vapor.
Cozinhar ainda era uma diverso, com um leve sabor de coisa proibida. Passara quase dez anos trabalhando como modelo, sempre preocupada com cada grama extra adquirido, mantendo o corpo num peso bem abaixo do que teria naturalmente. Desde que interrompera a carreira, engordara quase seis quilos. Mas fizera isso de forma cuidadosa e, quando se sentira mais como um ser humano do que como um espantalho, passara a se concentrar em manter o peso. Era ridiculamente fcil em comparao com a dieta rgida! que seguira no passado.
Relaxando na gua quente da banheira, massageou a panturrilha dolorida. Ela precisava admitir que estava extenuada depois de passar o dia arrumando a casa e, em seguida, cozinhando. Seria terrvel se bocejasse na frente de Brendan ou, ainda pior, se dormisse!
Um pouco antes das seis e meia ela tomou um refrigerante cheio de cafena enquanto punha a mesa, e ento correu para o quarto para pentear o cabelo.
Sua mo parou no meio de um movimento quando ela percebeu o que estava fazendo. Brendan no podia ver sua aparncia!
Essa lembrana foi um pensamento surpreendentemente libertador. Naquela noite ela seria julgada unicamente por sua personalidade e conversa, por como era como pessoa. Sua aparncia no iria importar.
Era uma sensao libertadora, mas tambm aterrorizante. E se ela no fosse uma pessoa digna de interesse?






CAPTULO DOIS



Brendan acabou de lavar as tigelas dos cachorros. J levara os dois para passear, mas, enquanto ouvia as horas, deu-se conta de que precisava se apressar caso no quisesse chegar atrasado ao jantar com sua nova vizinha.
Foi ao quarto trocar de roupa. Correu os dedos pelos cabides de calas. Escolheu calas caqui em vez de jeans. Em seguida, puxou um cinto marrom, identificado pela etiqueta em braile com a qual rotulava suas roupas.
Passou pelos ternos emparelhados com camisas de manga comprida e gravatas que ficavam nos cabides de metal e sentiu os de plstico. Era seu sistema para localizar camisas casuais. Era melhor pegar uma camisa limpa. Aparecer com uma mancha de tinta ou comida na gola no passaria uma boa impresso.
Corria as pontas dos dedos pelos rtulos que indicavam as cores quando sua mo parou numa camisa de linha. Desde quando se preocupava tanto em passar uma boa impresso para uma mulher?
Terminou de se vestir e chamou os ces. Colocou um arreio em Cedar e uma coleira em Feather. A cadela tentou se colocar entre Cedar e ele, e quando Brendan finalmente usou um tom severo, ela se encolheu como se tivessem batido nela com um pedao de pau.
- Sinto muito, menina - disse ele, ao parar diante da porta de Lynne. - Estou me esforando ao mximo para fazer com que isso funcione.
- Fazer o que funcionar? - Lynne abriu a porta a tempo de escutar seu ltimo comentrio.
Brendan forou uma risada.
-  Desculpe. No costumo conversar com meus ces.
- Mesmo? - retorquiu num tom bem-humorado.
- Certo, talvez eu converse - admitiu.
- Eu no o culpo. Ces costumam prestar mais ateno no que voc diz do que a maioria das pessoas.
A direo da voz de Lynne mudou quando ela recuou para permitir que ele entrasse.
- Por favor, entre e fique  vontade. Mas voc vai ter de me dizer sobre o que est falando.
- Ache uma cadeira - disse Brendan a Cedar.
- No sabia que se ensinava esse tipo de coisas a eles - comentou Lynne enquanto Cedar conduzia Brendan atravs da sala at uma larga cadeira de braos.
- Bom menino - disse ao co. Para Lynne, ele disse: - No  um comando formal ensinado pela escola, mas da primeira vez que peguei Feather, outro usurio de co-guia me sugeriu que seria um comando til, juntamente com coisas como "Ache a porta". Algumas pessoas usam comandos especficos para achar um parente em uma loja grande.
- H quanto tempo voc tem Cedar? - perguntou Lynne.
- H duas semanas. Acabamos de nos formar na escola de treinamento.
- Puxa vida! - disse ela, claramente surpresa. - Eu pensava que vocs eram parceiros h muito mais tempo do que isso.
- Ele  um bom cachorro - disse com um sorriso. - E ajuda o fato de eu j possuir experincia anterior com um cachorro. Falando nisso, onde est Feather?- Ele estendeu a mo at seu lado direito, onde estivera tentando ensinar Feather a deitar, mas ela no estava ali.
- Sinto muito - disse Lynne. - Eu estava fazendo carinho nela. Isso no  permitido?
-  Se o cachorro no estiver trabalhando, tudo bem. Ela deve estar adorando a ateno. Ela tem estado cada vez mais deprimida desde que a aposentei e peguei Cedar.
- Como voc sabe? Ele deu de ombros.
- No tem se alimentado bem. Cheira a comida, mas no come. E j foi bem mais animada. Vivia saltitando e balanando o rabo. Sempre percebi isso porque o corpo inteiro dela vibra da traseira para a frente quando ela est abanando o rabo.
- A idia de um cachorro deprimido parece estrada, mas acho que faz sentido. Vocs dois trabalham juntos h oito anos,  isso?
- Sim. Acaba de completar 10 anos. - Suspirou. - Estou comeando a achar que deveria me separar dela. As famlias que criaram os cachorros quando eles eram filhotes costumam adot-los novamente. Quando isso no acontece, as escolas entram em contato com famlias interessadas em adotar um co-guia aposentado.
-  Como voc poderia abrir mo dela, depois de todo esse tempo que passaram juntos?
Ele ficou comovido ao perceber que ela compreendia seus sentimentos.
- Exatamente. Cuidar de dois ces no  fcil para um homem como eu, cego e que mora sozinho, mas no poderia simplesmente me livrar dela. Ela faz parte de minha famlia.
- Fao idia - murmurou Lynne. - Acho que tambm no conseguiria fazer isso. - O tom de voz de Lynne mudou quando ela comeou a falar com a cadela. - Voc  uma linda cachorrinha. E que nome lindo!
Lynne riu de deleite.
- Deixe-me adivinhar. Ela deitou e est convidando voc a cocar sua barriga.
- Ento voc deixa qualquer pessoa cocar sua barriga? - disse ela a Feather. - Que decepo!
Brendan riu.
- Voc precisa me desculpar por fazer tantas perguntas - disse Lynne. - No deve agentar mais responder a perguntas sobre seus cachorros ou sobre sua deficincia visual.
Ele deu de ombros.
- No primeiro ano isso me deixava maluco, mas acabei me acostumando.
- Ento voc nem sempre foi cego. - Foi uma declarao, no uma pergunta. - Por causa de algumas de suas reaes, tive a impresso de que voc j foi capaz de enxergar.
- Eu enxerguei at os 21 anos. Estava numa festa de fraternidade quando ca de um balco e bati de cabea.
- Puxa vida! Voc tem sorte de ter sobrevivido.
- Muita.
- Uma festa de fraternidade - disse ela. - Eu no fiz faculdade. Essas festas so to agitadas e imorais quanto ouvi falar?
- Estive em algumas que se encaixariam nessa discrio - disse ele com um sorriso amarelo. - Mas no estava bebendo naquela noite. Um cara tropeou e esbarrou em mim. Ca por puro azar.
- Coitado! - disse ela com sentimento. - Voc soube imediatamente que estava cego?
- No imediatamente. - Hesitou enquanto recordava seus primeiros dias no hospital. Kendra estivera com ele no dia em que perguntara ao mdico sobre sua viso.
- Vamos mudar de assunto - disse Lynne. - Acho que  sua vez de fazer perguntas.
Brendan ficou decepcionado consigo mesmo ao perceber que permanecera em silncio por muito tempo. Ele perdera todo o traquejo social. Receber clientes era muito diferente de jantar com garotas.           
- Desculpe.  que isso traz de volta muitas lembranas. Foi um perodo em que vivi... muitas mudanas. - Ele decidiu aceitar a oferta de Lynne. - O que voc faz?                                                             
Ele sentiu uma mudana sutil no ambiente, uma tenso que o surpreendeu. Ele esperara que fosse uma pergunta incua.
- No estou trabalhando no momento - respondeu Lynne. - Mas tenho algumas entrevistas de emprego marcadas para esta semana. Assim, estou torcendo para ter como responder a esta pergunta em breve.
- Certo - disse Brendan. Ela provavelmente acabara de ser demitida, e estava se sentindo constrangida ou humilhada. - Vou refazer a pergunta. Que tipo de trabalho voc gostaria de fazer?
- As entrevistas de emprego que tenho marcadas so para o cargo de auxiliar em educao pr-escolar e em uma escola de ensino fundamental - respondeu. - Mas o que eu gostaria realmente de fazer  de entrar numa faculdade e aprender a lecionar.
- Com que faixa de idade voc prefere trabalhar?
- No tenho certeza - admitiu. - Gosto de crianas pequenas, mas sinceramente no conheo o bastante sobre crianas mais velhas ou adolescentes para saber se tambm gostaria dessas faixas etrias. Da as escolhas de emprego.
- Ento nunca trabalhou com crianas?
- Nunca. - Ele a ouviu se levantar. - Quer beber alguma coisa?
- Tem ch gelado?
- Acar ou limo?
- S limo.
Ele ouviu os passos de Lynne se distanciarem e, ento, soarem no que pareceram azulejos de uma cozinha. O apartamento dela parecia ter a mesma planta do dele, embora invertida. O tamborilar das patas de Feather alertou-o que ela acompanhara Lynne.
Era sua imaginao ou sua anfitri sentira-se incomodada no momento em que ele perguntara sobre seu passado? Ela arranjara uma desculpa para se afastar logo depois e, certamente, no oferecera nenhuma informao sobre o que fizera antes de se mudar para Gettysburg.
Brendan ouviu o som de cubos de gelo e, um minuto depois, Lynne voltou com o ch.
- H algum lugar em particular que voc queira que eu coloque isto? - perguntou.
- H uma mesa perto de mim?
- Tem uma mesinha de canto do lado direito da sua poltrona. Voc pode colocar o copo nela.
Brendan ouviu-a mover-se na direo referida quando o copo pousou na mesa, uma fragrncia feminina o envolveu. Ela estava prxima.
Qual seria sua altura? Provavelmente era bem alta para uma mulher, considerando que quando estava de frente para ele sua voz no soava vindo muito de baixo.                                                                                       
- Pronto - disse ela. - Est na frente da mesa, no canto mais perto de voc.
- Obrigado.
- O jantar vai demorar um pouco. Como eu queria evitar extravagncias, assei um frango.
- Gosto de frango assado. Batatas? - perguntou, esperanoso.
-  Igualmente assadas. E cada uma com dois recheios.
- Aquele tipo que  amassada com creme de leite e queijo e, ento, colocada de volta na concha? Ela riu.
- Concha, no. Casca.
- Tanto faz - disse ele, com um encolher de ombros. - Parece maravilhoso, especialmente para algum acostumado com comida congelada.
- Aposto que cozinhar  difcil para voc - disse com cautela.
Brendan riu, e ento pegou o copo de ch e tomou um gole.
- Conheo outro cara cego que  um cozinheiro fabuloso. Se bem que ele  parcial, o que facilita as coisas.
- Parcial?
- Uma pessoa que ainda tem parte da viso, mesmo que muito limitada. Alguns parciais possuem mais viso num olho que no outro. Outros enxergam em certos quadrantes de seu campo de viso. Como no tenho viso alguma, sou um total.
- Desculpe por ter interrompido voc. Estava falando que seu amigo cozinha.
- Tudo bem. Eu s ia contar que mesmo quando eu podia enxergar, a culinria no ficava no topo da minha lista de atividades favoritas.
- Desde que era menininha, sempre gostei de cozinhar. Mas durante muito tempo no fiz isso.
Ele lamentou no ter visto seu rosto quando ela fez essa declarao to estranha.
- Vida cheia?
- Algo assim - murmurou. - Voc sempre morou aqui?
Ela claramente no queria falar de si mesma.
- No. Eu cresci na regio rural da Pensilvnia, perto de Pittsburgh. E voc?
- Uma cidadezinha chamada Barboursville, l na Virgnia.
- Fica perto de Williamsburg?
- No.  vizinha de Richmond. Por qu?
- Um dos scios de minha firma cursou faculdade na William & Mary. Como tnhamos ficado muito amigos nos tempos de escola, fui at l visit-lo algumas vezes.
- Esqueci que voc trabalha num escritrio de advocacia.
- Isso. Brinkmen & Brinkmen. Nosso escritrio fica no centro da cidade, na Baltimore Street.
- Gosto da cidade.  encantadora.
- E conveniente.
- Conveniente?
-  fcil para mim andar por ela sem ajuda.
- Sim, claro. - Ela fez uma pausa. - No pensei por esse ngulo. Como voc no dirige, precisa ter os servios bsicos a uma distncia que possa percorrer a p. - Por seu tom de voz, ela pareceu estar falando mais consigo mesma do que com ele.
-  Muitas pessoas com deficincia visual vivem em grandes cidades, porque nelas as coisas so mais convenientes, isso sem falar no sistema de transporte pblico.
-  Tambm no tinha pensado nisso - admitiu Lynne.
- Uma das coisas que me atraiu a Gettysburg foi a proximidade de coisas das quais preciso. A Main Street possui um comrcio fervilhante por causa da universidade. Posso chegar a p a bancos, mdicos e lavanderias. A rua tambm tem uma mercearia e uma farmcia. E excelentes restaurantes.
- Voc costuma ir  universidade?
- Vou a muitas apresentaes de teatro e msica. s vezes, eles tambm oferecem palestras maravilhosas.
- Que bom! - disse ela, deliciada. - Adoro msica.
- Toca algum instrumento?
- No. Eu tocava piano quando criana  uma atividade que sempre quis recomear.
- Talvez esta seja sua chance - disse ele.
- Talvez seja. Ento, o que h mais para se fazer em Gettysburg?
- Bem, espero que voc goste de Histria da Guerra Civil.
Ela riu.
- Culpada. Foi uma das coisas que me atraiu neste lugar. Quero aprender mais sobre o campo de batalha e a guerra inteira.
- Eu posso apostar que voc ter muitas oportunidades.
- O que mais?
- As coisas de sempre, com foco extra em Histria, talvez, H uma Associao Comunitria de Concertos, uma biblioteca, uma sociedade de assistncia, grupos de teatro, algumas igrejas, organizaes empresariais e civis... Se voc quiser se envolver em qualquer uma dessas organizaes, garanto que ser recebida de braos abertos.
- Eu nunca fiz nenhum trabalho voluntrio. No saberia o que fazer.
- Voc no precisa ter experincia. - Ele se perguntou porque Lynne parecia to pouco confiante. - Se voc comparecer a uma ou duas reunies, ou se juntar a uma igreja, no vai demorar muito para que comecem a pedir sua ajuda.
- Isso seria bom. - Ele a ouviu se levantar. - O Jantar j deve estar ficando pronto. Por que no vamos Para a mesa?
O jantar foi delicioso, e a conversa simples e despretensiosa. Depois, tomaram caf e beliscaram biscoitos.
Finalmente, ele se lembrou de que comearia o dia bem cedo na manh seguinte. Estava se levantando quando o telefone tocou.
- Com licena. - Ouviu-a caminhar pela sala. -  melhor eu atender - disse, aparentemente depois de olhar a tela de identificao de chamada. - Al? - disse numa voz cautelosa e calma.
Embora fosse falta de educao, ele no podia evitar escutar a parte de Lynne na conversa.
- Ol, papai. - Sua voz soou com um prazer que Brendan adoraria ter ouvido ser direcionado a ele. - Como vai? Sim... sim. Eu no pude ir. - A animao deu lugar a um tom claramente decepcionado. - Entendo. Quando vai ser? Parabns. No, acho que no terei tempo... Talvez no Natal. Preciso ver se posso me ausentar. Olhe, no posso conversar muito estou com uma visita.
Lynne concluiu a conversa com uma palavra de despedida que soou artificial. Enquanto ela punha o fone de volta no gancho, Brendan rapidamente pegou mais um biscoito para fingir que no estivera ouvindo. Ela voltou a se sentar, e depois de um momento de silncio inquietantemente longo ele finalmente perguntou:
- Alguma coisa importante?
- Meu pai. Ele vai se casar de novo.
- Sinto muito. Quero dizer, achei que eram ms notcias.
Ela arfou, e ele percebeu que ela estava quase chorando. Em algum lugar  esquerda de Brendan, Feather ganiu, e ele a ouviu caminhar at os ps de Lynne. Um momento depois Lynne soltou uma risada trmula.
-  Obrigada, menina. - Ela disse a ele: - Sua cachorrinha acaba de me dar um beijo. Acho que est preocupada comigo.
- No  a nica. - Sem pensar, segurou o brao que ele a ouvira colocar na mesa. Em seguida deslizou a palma pelo brao de Lynne at finalmente estar cobrindo sua mo.
Sentiu-a pousar a outra mo sobre a sua e apert-la gentilmente. E, ento, ela retirou ambas as mos.
- Agradeo sua preocupao, mas estou bem. Eu j devia estar acostumada com isso.
- Acostumada com... seu pai no ser mais casado com sua me? - Talvez o pai dela tivesse tido uma crise dos quarenta e tantos anos, se divorciado e arrumado uma mulher mais jovem, no necessariamente nessa ordem. Ele via muitos casos assim em seu trabalho.
- Meus pais se divorciaram quando eu tinha dois anos - disse Lynne. - Essa sortuda ser sua sexta esposa.
Ele no conseguiu esconder sua surpresa.
- Uau! Ele gosta de se casar. Para seu alvio, ela riu.
Para dizer o mnimo. - Ela bebericou seu caf. Desculpe por isso ter atrapalhado nosso jantar. Ele sempre consegue me chocar quando conta sobre seu mais novo relacionamento, embora eu no saiba porqu. - Ela pigarreou. - Feather foi muito carinhosa. Ela sempre reage assim quando v algum triste?
- Quando sente que estou triste, ela faz a mesma coisa. Mas, at onde eu saiba, voc  a nica outra pessoa que teve a honra de receber um beijo canino lambuzado.
- Eu gostei - disse, levantando-se da mesa. - Quer levar alguns biscoitos?
- Talvez s alguns. Preciso confessar que j acabei com os que voc me deu.
- Antes voc do que...
Lynne foi interrompida por um rosnado alto.
- Qual  o problema? - perguntou Lynne. Ele suspirou.
- Acho que ela no gostou de algo que Cedar fez. ou talvez tenha sido apenas o jeito como ele olhou para ela. No est lidando graciosamente com o fato de estar sendo substituda. - Ele chamou seu co-guia, ouvindo os sininhos da coleira de Cedar tilintarem debaixo da mesa, onde ele estivera deitado.
- Pobre menina - disse Lynne. - Posso imaginar como ela se sente. - Sua voz soou de baixo e ao longe, e ele concluiu que ela havia se agachado para acariciar Feather. - No  divertido ser substituda, ?
- E  muito difcil para ela me ver sair de casa todas as manhs com Cedar - disse Brendan.
Pensando que ver seu pai casar-se pela sexta vez dera a Lynne muita experincia em ser substituda no afeto de algum. - Como eu disse, realmente no quero me separar dela, mas se ela puder ser mais feliz com outra pessoa, no  justo da minha parte segur-la.
Brendan se levantou e tateou at achar a guia de Cedar. Ainda parecia estranho tocar aquele couro novo, depois de tantos anos segurando a guia desgastada de Feather.
Lynne precedeu-o at a porta, e ele chamou por Feather. Como tinham apenas cruzado o corredor, Brendan no se dera ao trabalho de colocar uma guia na coleira de Feather, mas ele no ouviu o tilintar de seus sinos.
- Feather, venha. Nada.
- O que ela est fazendo? - finalmente perguntou a Lynne.
- Ah, ela ainda est deitada no tapete da cozinha.
- Feather, venha - tentou de novo. Mais uma vez, ele no ouviu nada. Ele sussurrou: - Cachorra, se eu tiver de ir at a peg-la, a coisa vai ficar bem feia para voc.
Lynne produziu um som abafado, como uma tentativa de segurar o riso.
? Parece que ela quer ficar mais um pouco. 
? No, obrigado. Seria um abuso. Vir jantar e depois deixar uma cachorra aqui para voc cuidar. 
? Eu no me importaria, juro.
Com clareza repentina, ele lembrou do telefonema que ela acabara de receber. Aquilo a deixara muito abalada, a despeito de seu esforo em fingir se recuperar. E Feather a confortara. Talvez ...                       
- Muito bem - disse ele sem pensar muito. - Se voc realmente quiser, ela pode ficar. - Ele se virou novamente na direo da cozinha. - Mas ela ainda precisa vir quando eu a chamar. Feather! Venha! - ordenou com o tom de "Eu no estou brincando" que ele raramente usava. Dessa vez ouviu-a levantar-se, espreguiar-se e, finalmente, caminhar at ele.
- Voc  muito metida a esperta - disse a Feather quando ela parou ao seu lado. Ele segurou a coleira de Feather quando ela tentou colocar-se entre Cedar e ele. - No, menina. Sinto muito. - Ele se ajoelhou. - Quer passar esta noite com Lynne?
- Voc podia vir peg-la quando chegar em casa do trabalho amanh - disse Lynne. - Tenho uma entrevista s 13 horas, mas no ficarei fora nem por uma hora. Assim, ela no ficar sozinha o dia todo.
Nem Lynne, pensou Brendan, lendo nas entrelinhas.
- Por mim, tudo bem, se tiver certeza de que no ser incmodo.
- Incmodo nenhum - disse num tom absolutamente honesto. - Vou adorar a companhia.
- Certo. - Ele fez um carinho na cadela e pegou a guia de Cedar. - Vamos ver como ela vai age quando eu caminhar at a porta.
Ele deu o comando de caminhar para a frente enquanto Lynne abria a porta. Cedar conduziu-o atravs do corredor para parar em frente  porta.
- O que ela fez?
- Ela voltou para a cozinha e deitou-se no tapete de novo.
Ele riu, embora se sentisse vagamente magoado.
- Traidora.
Estendeu a mo direita para Lynne, percebendo o quanto estava ansioso por sentir de novo o toque daquela pele.
- Obrigado pelo jantar. E, mais uma vez, pelos biscoitos.
Ela segurou a mo dele, e a emoo que crescera durante a noite explodiu em seu plexo solar.
Lynne ficou imvel quando eles apertaram as mos. Absolutamente imvel, como se estivesse congelada. O corpo de Brendan recomeou a voltar  vida ao toque suave da pele de Lynne. Sua mo pequena e delicada quase foi engolida pela mo bem maior de Brendan. Ele se manteve simplesmente segurando aquela mo, incapaz de solt-la. Lentamente, esfregou o polegar pelas costas da mo de Lynne e ouviu-a arfar alto.
Uma satisfao correu pelo corpo de Brendan. Ela tambm sentia.
O que pensa que est fazendo? No est interessado num relacionamento.]Qumica, assegurou-se. Apenas isso. No significava nada. E, mesmo assim... Ele ainda segurava com firmeza a mo de Lynne.
O telefone tocou, agudo em meio ao silncio que pairava no ambiente. Ele sentiu-a puxar abruptamente a mo.
- Deve ser minha irm. Aposto que papai tambm acaba de falar com ela.
- Vou deixar vocs conversando - disse ele, ciente de que o momento havia se passado. - Que tal nos encontrarmos no corredor s 10h30 para lev-los para passear  noite? Ento ensinarei a voc os comandos dela.
- Combinado. - Ela tocou o brao dele por um breve instante. - Obrigado por ter vindo. Nos vemos daqui a pouco.
Lynne correu de volta para seu prprio apartamento quando o fone tocou de novo, e ele a ouviu fechar a porta.






CAPTULO TRS

Feather, voc quer sair? 
Lynne vestiu um casaco leve e pegou a guia de couro que encontrara pendurada na porta.
A cadela de Brendan correu at ela, abanando a cauda. Parecia muito animada, e Lynne sorriu ao prender a guia na coleira de Feather.
- Voc  uma menininha muito fofa, sabia? Se uma cadela pudesse sorrir, esta o teria feito.
Ao sair para o corredor, Lynne viu que Brendan j estava ali com Cedar.
- Bem na hora - disse ele. - "Avante", para caminhar para a frente, e "Senta", "Deita" e "Fica". Por que voc no me segue para fora?
Feather caminhou ao lado de Lynne at eles chegarem a um gramado perto da porta.
- Bem, faa o que tiver de fazer. - Sentia-se boba, caminhando pela grama, tentando induzir a cachorra a "fazer".
- Estacione - disse Brendan.
- Como  que ?
Esta  a palavra que voc deve usar para ela se aliviar. Acho que ela no vai responder a "faa o que tiver de fazer".
- No consigo acreditar que seus ces so treinados para ir ao banheiro sob comando. Est falando srio? - Ela estava acostumada com bichinhos que eram soltos no quintal para farejarem tudo at acharem o lugar perfeito.
- Claro. Voc no acha que eu vou ficar aqui fora, neste frio, esperando at meus ces decidirem que  hora de fazer, acha? - Entrou no gramado com Cedar. - Fique parada num mesmo lugar, como eu.
- No tenho de caminhar com ela?
- Caminhar faz bem a ela, mas neste momento, no. Apenas mande-a estacionar.
- Estacione - repetiu, sem confiana.
E Feather finalmente fez o que tinha de fazer. Cedar tambm. Aparentemente, "estacione" era uma palavra mgica.
-  isso? - perguntou, um pouco incrdula. - S vir at aqui, parar e mandar ela "estacionar"?
- Sim. - Ele riu. - A nica outra coisa que eu recomendo  que voc traga um saquinho para recolher o coc, se for preciso.
- Eu no tinha pensado nisso. O que mais preciso saber?
- De vez em quando, ela resolve brincar e no obedece. Ento eu digo que vamos entrar, o que geralmente faz com que ela se lembre que  melhor seguir o programa, se no quiser passar a noite inteira de pernas cruzadas.                                             
Ela riu.
- E ela odeia chuva e neve. Quando o tempo est feio, eu praticamente preciso arrast-la. Ela realmente odeia se molhar.
-  Certo. Ento, mais quantas coisas eu preciso aprender?
- Voc tem de dar a ela um comando para comer. Mas eu posso mostrar isso amanh de manh.
- E quanto a dormir? Ela pode subir na cama? -Ela nunca foi muito de dormir no sof ou na cama,
ao contrrio deste grande bobalho - disse ele, indicando Cedar. - Ele dorme no sof desde o primeiro dia em que o levei para casa. Mas isso no  proibido, a no ser que voc no queira. Eu nunca a encorajei a isso... Os plos amarelos dela aparecem muito mais nos meus ternos do que os plos pretos dele.
Ela no se conteve a correr os olhos pelas roupas dele e ento... ento esqueceu instantaneamente dos plos de cachorro.
Brendan estava usando calas de moletom e uma velha camisa de malha da faculdade de direito de Colmbia. Concluiu que ele devia fazer musculao porque tinha o peito bem esculpido e os msculos dos braos pareciam querer saltar das mangas da camisa.
Puxa vida!, pensou Lynne. Ela o achara gostoso antes, mas agora... A cala de moletom no era apertada, mas quando ele se virou para voltar para dentro, ela viu que no havia um grama de gordura em qualquer parte dele. Suas costas eram to rgidas e musculosas quanto o resto do corpo.
Segurou a pesada porta dos fundos e a abriu. Mantendo-a aberta, recuou um passo.
- Primeiro as damas.
- Obrigada - murmurou. Ela deu um passo para a frente, depois de um momento, Feather moveu-se ao lado dela e subiu os degraus.
Enquanto subia a escada na frente dele, ela refletiu que era uma sensao agradvel saber que ele no estava comendo-a com os olhos. Lynne perdera a conta do nmero de homens que pareciam acreditar que, sendo ela uma celebridade, particularmente uma modelo, eles tinham o direito de lhe dar uma palmada, um belisco ou uma passada de mo. A maioria das pessoas via as modelos como bonecas animadas, desprovidas de sentimentos e emoes.
-  Desculpe por no ter lembrado de lhe contar os outros comandos dela - disse Brendan s suas costas.
-  Bem, pelo menos eu conheo o mais importante.
Ele riu.                   
-  verdade. Se quiser, pode lev-la para passear amanh, mas se no tiver tempo, farei isso  noite.
- Por favor, no. Eu adoraria passear com Feather. Mas devo dizer a ela "Avante" e no "Pra frente"?
- Isso  apenas para um co que esteja com guia. Ela conhece muito mais comandos, mas esses so os nicos dos quais voc vai precisar, e alguns dos outros ela precisa apenas quando est trabalhando.
Quando chegaram aos apartamentos, ela pegou sua chave e se virou.
- Boa noite. Ele sorriu.
- Vejo voc amanh de manh.
Enquanto escovava os dentes, Lynne pensou no quanto ela e seu vizinho estavam se afinando, apesar do comeo tempestuoso.
Ela no o mencionara a CeCe, sua irm. Durante sua conversa por telefone, as duas haviam passado a maior parte do tempo se queixando uma  outra a respeito do quanto seu pai era um pssimo juiz de carter.
- Por que ele precisa casar com elas? - perguntara CeCe. - Por que simplesmente no mora com elas? Assim ele no teria de pagar penses depois que se cansasse delas.
Lynne imaginou que devia haver algum motivo psicolgico complexo para seu pai precisar se casar com uma mulher atrs da outra, embora havia anos tivesse desistido de descobrir que motivo era esse.
Estremeceu ao lembrar do telefonema que teria de dar  sua me no dia seguinte. Sua me jamais se casara de novo, e cada vez que seu pai achava uma nova esposa, a me de Lynne explodia de raiva.
Suspirando, Lynne chamou por Feather. A cadela entrou alegremente no quarto de Lynne e se deitou no tapete ao lado da cama. Lynne passou vrios minutos acariciando a barriga sedosa de Feather.
- Voc  melhor do que um homem. Se eu tivesse uma cadela como voc, jamais ficaria preocupada em ficar sozinha. Voc seria fiel a sua vida inteira, no seria?
Na manh seguinte, Lynne acabara de terminar sua ioga quando a campainha tocou. Ela abriu a porta para ver Brendan num terno escuro impecvel, camisa branca e gravata listrada, pronto para o dia.
- Bom dia - disse ele.
- Oi. - O instinto a fez baixar seu suter para os quadris antes de lembrar-se que ele no podia v-la. Ainda sentia-se gorda em suas roupas de ginstica. s vezes era difcil se lembrar de que ela ganhara peso de propsito.
- Voc est timo nesse terno. Mas como voc consegue combinar as cores?
Aquele homem certamente era lindo. Ela apostava que no tempo da faculdade as garotas faziam fila para ficar com ele. Bem, provavelmente ainda faziam.
- Tenho rtulos em braile em algumas de minhas roupas. E sou cliente de uma lavanderia fantstica. Quando levo roupas para eles lavarem, sempre ponho cada conjunto em bolsas separadas. Assim, todas as roupas que estou usando iro mais tarde para o mesmo saco. Depois, os funcionrios da lavanderia recolocam o conjunto inteiro numa bolsa limpa antes que eu v peg-lo.
Feather passou por eles e se enrodilhou nos joelhos de Brendan. Sem se importar com o terno, ele se ajoelhou e lhe fez um carinho.
- Ei, menina. Tambm senti falta de voc. Quando ele se levantou, Lynne viu a sacola de comida que ele pusera ao lado da porta.
- Aqui est o desjejum dela e jantar suficiente, para o caso de eu chegar tarde em casa.
- Certo. - Ela pareceu reduzir-se a frases de uma s palavra ao olhar de novo para ele. Devia ser crime um homem ser to bonito.
- Alguma coisa errada? - perguntou ele. Ela soltou uma risadinha.
-  que voc est to elegante que eu estou parada aqui, agradecendo aos cus por voc no poder me ver!
Ele tambm riu, o que fez com que ela se sentisse menos desajeitada.
-  Bem, agora voc me deixou curioso - disse ele.
E, antes que ela percebesse, ele estendeu o brao e pousou uma enorme mo no seu ombro.
Ela quase arfou ao toque de sua palma quente. A mo dele era to grande que seu polegar repousou facilmente na concavidade na base de sua garganta; ela se perguntou se ele conseguia sentir sua pulsao.
- Ah - disse ele, sentindo a ala de sua malha sem mangas. - Roupa de ginstica. O que voc estava fazendo?
-  Ioga - respondeu, de novo com uma s palavra.
- Desculpe por interromper. Vou deixar voc voltar para ela.
- J terminei - disse ela. - Trs vezes por semana fao uma sesso rpida e depois saio para correr. Nos outros trs dias tenho uma rotina completa para seguir.
- Com isso, so apenas seis. - Ele ainda estava com a mo no ombro dela, roando o polegar para a frente e para trs em sua clavcula. Ela conteve um impulso de dar um passo para a frente e aninhar seu corpo no dele. O que havia de errado com ela?
- Bem... seis. Certo. - Meu Deus, por favor, me . ajude. - Tiro os domingos de folga, a no ser quando sinto vontade de fazer alguma coisa.
- Eu tambm - disse ele. - Fao esteira todos os dias e levanto pesos trs vezes por semana.
- Posso fazer mais uma pergunta idiota? - Ela ia ser rude novamente, mas estava realmente curiosa em saber como ele se virava sozinho to bem.
Para seu alvio e decepo, ele soltou seu ombro e recuou um passo.
- Segundo meu velho professor de latim, no existem perguntas idiotas, apenas respostas idiotas.
- Como voc sabia? Como sabia exatamente onde estava o meu ombro?                                      Por um momento, ele pareceu intrigado.              
- Agora mesmo, quando estendeu a mo, voc no se atrapalhou nem pegou a parte errada do meu corpo. Voc colocou a mo exatamente onde queria.
Ele riu.
- Como voc sabe? Talvez eu no quisesse pegar um ombro!
Ela o fulminou com um olhar severo, e ento lembrou que isso no surtiria efeito.
- Muito engraado.
- Voc nunca ir saber, no ?
- Eu vou saber depois que voc tiver respondido minha pergunta - disse ela com firmeza. Esse flerte estava fugindo ao controle. Ele era apenas seu vizinho, pelo amor de Deus! Embora fosse lindo de morrer e ela babasse cada vez que ele jogava a cabea para trs e ria daquele jeito, Lynne no estava interessada num relacionamento. Tudo que queria era acomodar-se numa cidade pequena e ter uma vida agradvel.
-  Muito bem - disse ele, finalmente srio. - Quando perdi a viso, minha audio aos poucos comeou a ser mais do que a audio comum de uma pessoa que enxerga. Ou talvez seja apenas o fato de que agora eu recorro mais a ela. Enquanto uma pessoa est falando, uso a audio para medir sua altura ou a distncia na qual ela se encontra. Mas no  algo que eu faa conscientemente. Simplesmente sabia onde seu ombro estaria.
- Isso faz sentido.
Colocou a mo em seu relgio de pulso, e uma voz anunciou as horas.                                                   
- Preciso ir. Se no for problema para voc, passo aqui  noite para pegar minha menininha.                   
- Est timo para mim. Tenha um bom dia.
- Obrigado. Voc tambm. - Pousou a mo na cabea de Feather e fez um carinho em suas orelhas. - A gente se v mais tarde, menina. Passe um bom dia com a Lynne.
Enquanto se agachava para pegar a bolsa com comida, Lynne observou-o virar-se e caminhar com determinao pelo corredor. Ele nem hesitou antes de comear a descer as escadas com o cachorro.
Como seria depender tanto de um animal? Ela duvidava que fosse capaz de confiar tanto num cachorro a ponto de descer uma escadaria sem enxergar.
- Venha, Feather - disse enquanto se virava para entrar no apartamento. A cadela ainda estava parada onde Brendan a deixara, e se Lynne fosse uma pessoa dada a vos de imaginao, ela diria que a coitadinha estava triste. - Por que no samos para passear? 
Naquela noite, Brendan estava ansioso para chegar em casa. Tivera um dia longo preparando-se para um julgamento no qual ele seria o principal advogado de acusao. Parou no trreo para pegar sua correspondncia e subiu os degraus para o segundo andar. Mal pusera os ps no corredor quando ouviu uma porta se abrir.
Unhas de cachorro pinicaram rapidamente nadadeira, acompanhadas por um alegre gemida canino.
Feather no parecia to feliz desde que Brendan trouxera Cedar para casa. Durante o perodo de quase um ms que Brendan passara na escola de adestramento, Feather ficara na casa do velho colega de escola com quem ele trabalhava. Feather considerava John Brinkmen o sujeito mais fantstico do planeta, e Brendan no tinha dvidas de que ele a mimara terrivelmente durante sua ausncia. Brink a trouxera de volta no dia em que Brendan retornara da escola de treinamento. Feather ficara animada em v-lo at o momento em que sentiu em suas roupas o cheiro de um cachorro desconhecido. Desde ento, ela havia estado cada vez mais deprimida.
Ele pegou Feather enquanto Cedar mantinha-se imvel, aguardando pacientemente o prximo comando.
- Oi, menina. Passou um bom dia com Lynne?
Ele levantou a cabea. Mesmo se no tivesse Feather ali para avis-lo, ele saberia que ela estava ali. Lynne no emitira nenhum som e ainda estava longe demais para que ele sentisse seu perfume, mas ele soube.
- Oi.
- Oi! - Parecia animada, empolgada. - Adivinhe o que fiz hoje!
- Ganhou na loteria? 
Ela riu.
- No chegou nem perto. Comprei um piano!
- Puxa, quando decide fazer alguma coisa, voc no perde tempo!
- Vo entregar na tera. E liguei para a universidade para saber se tinham algum que pudesse me dar aulas. Comeo na semana que vem!
- Bom para voc.
- Tambm tive uma entrevista na escola de educao pr-escolar. Precisam de algum s para vinte horas por semana. E quanto mais penso, mais acho que preferiria isso a um emprego de tempo integral. Assim, posso comear a pensar em estudar. Talvez at comece em janeiro.
- Voc vai para a Gettysburg?
- No posso. A universidade no tem nenhum curso de formao de professores. Mas h vrias outras faculdades nas redondezas. Procurei na Internet. Os campi de Shippensburg University, Wilson College, Penn State's Mont Alto e Messiah College ficam a menos de uma hora de viagem daqui. Com exceo de Mont Alto, todas as universidades possuem faculdades da educao, mas eu poderia fazer os primeiros dois anos l e depois pedir transferncia. Se eu quisesse ficar na Penn State, teria de terminar o curso no campus da University Park, que fica a mais de duas horas de viagem, mas no quero me estabelecer aqui e depois me mudar, e tambm no quero ter de dirigir duas horas e meia at a universidade durante dois anos. Assim, na semana que vem vou visitar as universidades Shipp, Wilson e Messiah.
- Voc tem muita energia, no  mesmo? Ela riu.
- Tanta quanto qualquer outra pessoa. S parece assim porque estou comeando muitas coisas novas.
Ele estava morrendo de curiosidade em saber no que ela trabalhara antes, que tipo de carreira ela aparentemente abandonara. Talvez fosse alguma coisa to trivial quanto atendente de lanchonete, mas ele duvidava. Ento, ele pensou em outra coisa.
- Voc sabe que trabalhando vinte horas por semana provavelmente no ter como pagar o aluguel?
- Quanto mais um piano novo, acrescentou em pensamento.
Ela ficou imvel. Ele talvez no pudesse v-la, mas percebeu que ela estava praticamente congelada. Finalmente, ela pigarreou e disse baixinho:
- Eu sei disso.
- Espero no ter desanimado voc - disse ele, agora arrependido por ter aberto a boca. - Mas isso no  da minha conta. Por favor, me desculpe.
- Tudo bem. Eu devia ter imaginado que isso pareceria um problema para algum que no me conhece.
- Ela hesitou. - Eu... bem... - Ela parou novamente e soltou uma risadinha nervosa. - No tem jeito educado de dizer isso. Eu sou financeiramente independente.
- Isso foi educado. Voc podia ter dito que  podre de rica.
- Acho que poderia. - Ela riu de novo.
- Voc ?
- Sou o qu?
- Podre de rica.
- Defina "podre de rica", por favor. 
Ele no pde evitar um sorriso.                             
- Certo. Mais de um milho.                              
- Ah, sim. - O que ele ouviu em sua voz foi alvio? - Sim.                                                         
Ela possua mais de 1 milho de dlares? Seria algum tipo de herdeira de um industrial ou algo assim? Mas no lhe ocorreu nenhuma forma educada de perguntar.
- Isso  bom - comentou simplesmente. Ele pegara a chave em seu bolso. Enquanto abria a porta, disse: - Entre. Ento Feather foi boazinha hoje?
- Ela foi maravilhosa. - Brendan ouviu-a fechar a porta enquanto ele se curvava para remover a guia de Cedar. - Ela ficou me seguindo de um quarto para outro. Acho que ela estava acostumada a ficar sempre na companhia de algum.
- Sim. No trabalho, meu cachorro fica deitado ao lado de minha mesa. Ela ficou bem chateada quando passou a ser deixada sozinha todos os dias, embora eu sempre d um jeito de passar em casa para dar comida a ela.
- Bem, eu no me importo de t-la comigo um pouco. Ela  sempre bem-vinda em minha casa.
- Obrigado. - Ele no queria abusar da boa vontade de Lynne, mas era bom saber que ele tinha com quem contar num caso de emergncia. - J esteve no campo de batalha?
- No. Mas ele est quase no topo da minha lista. Acho que provavelmente  contra a lei morar em Gettysburg e no saber nada sobre a batalha.
- Eu tenho um passeio guiado de carro gravado em CD. Posso emprest-lo a voc ou, se estiver livre amanh, eu adoraria acompanh-la.
Brendan ficou um pouco surpreso em ouvir as palavras sarem de sua boca, particularmente porque no tivera nenhuma inteno de tirar folga no dia seguinte.
Ele acabara de convid-la para sair? Ele no tinha certeza se a oferta casual se qualificava como um encontro. Ainda assim, ele no tinha nada to prximo a um encontro desde o fim de seu noivado, alguns meses depois do acidente.
- Eu gostaria - disse ela. - E adoraria sua companhia. Podemos levar os ces?
-  Eles podem nos acompanhar no carro. Cedar pode ir a qualquer lugar que eu v, mas Feather agora  um animal de estimao, no um co-guia. Eu preciso verificar se o Servio do Parque permite ces no campo de batalha.
- Eu posso checar isso. Vou dar uma olhada mais tarde na Internet. Se no descobrir nada, ligamos para o servio do parque amanh de manh.
- Obrigado.
- Eu  que agradeo. Estava mesmo querendo ver o campo de batalha. - Ele percebeu que ela estava se virando enquanto falava. - Vou entrar na Internet agora.
Ele a seguiu at a porta.
- A que horas voc gostaria de ir?
- Sou flexvel. Que tal nove da manh?
- Est timo.
- Ento, at amanh.
- Lynne. - Ele estendeu a mo e segurou seu pulso antes que ela pudesse abrir a porta. - Obrigado por cuidar de Feather hoje. Ela significa muito para mim, e foi mais fcil trabalhar sabendo que ela no estava sozinha.
Lynne ficou imobilizada quando ele a tocou. Ento, para surpresa de Brendan, ela virou a mo sob a dele de modo a fazer com que suas palmas se tocassem, e apertou levemente seus dedos. Apele de Lynne era to morna e macia que ele soube que, qualquer que tivesse sido seu emprego anterior, no envolvera trabalho manual. Tambm sabia que no estava mais preparada do que ele para a tenso sexual imediata que surgira entre os dois. Ele sentira uma acelerao intensa em seu prprio pulso quando suas mos haviam se tocado, e a julgar pelo arfado baixo que ela deixara escapar, Lynne sentira a mesma coisa.
Mesmo assim, seu tom de voz foi calmo e suas palavras simples, quando ela pigarreou e disse:
-  Foi maravilhoso ter companhia - disse ela. - No sabia o quanto me sentia solitria at me mudar para c. E estou determinada a mudar isso. |- Ela riu. - Mesmo se tiver de comear com um cachorro.
- Ento, seu tom de voz mudou quando ela soltou a mo dele. - Epa!
- O que foi?
- Feather. Ela est sentada ao lado da porta. Acho que pensa que vai ficar comigo novamente.
- Feather, venha.
Silncio. Que timo. Estava para acontecer uma reprise do jantar da noite anterior. Ele tentou no se sentir magoado. Afinal de contas, do ponto de vista de Feather, era ele quem a substitura.
- Eu adoraria ficar com ela novamente - disse Lynne, hesitante. - Mas sei que gostaria dela aqui com voc.
- Sim, mas eu gostaria que ela fosse feliz...
- Ela vai superar. - A mo de Lynne tocou de leve o ombro dele, esfregando um crculo pequeno e tranqilizador.
Pelo menos, ele tinha certeza absoluta de que aquela massagem pretendia ser relaxante.
Na verdade, cada clula nervosa de seu corpo voltou  vida ao sentir aquela mo pequena e morna.
H anos Brendan no considerava relacionamentos, mas esta nova vizinha, de voz sensual e pele macia, estava excitando-o de uma forma impossvel de ignorar.
No que ele no gostasse de mulheres. Ele gostava, Muito. Ele amara, certa vez. Mas depois do acidente o qual perdera a viso deixara de acreditar que ela estaria de passar o resto da vida com ele. Por mais estpida que sua atitude lhe parecesse agora, ele havia repelido a noiva, isolando-se por trs de uma parede de autopiedade e insegurana.
Ele precisara de vrios anos de terapia para se tornar confortvel com o que era agora, para se convencer de que no perdera sua masculinidade junto com sua viso. Quando finalmente se recuperou, Kendra j havia seguido em frente. Ele a havia procurado apenas para descobrir que ela se casara.
Ele sara da casa de Kendra com um sabor de derrota e a certeza de que a perdera por causa de sua prpria estupidez.
Depois disso, ele sara com algumas mulheres agradveis e tivera um encontro s escuras que se revelara um desastre completo.
Mas, de todos os encontros normais que tivera, nenhum fora memorvel, e nenhuma mulher o deixara com gua na boca e pulso acelerado. Fora fcil imergir completamente em seu trabalho como advogado. Ele vivera bem com essa situao at h menos de uma semana, quando Lynne DeVane mudara-se para o apartamento em frente ao seu.
E agora?
Ele no fazia a menor idia de como ela era, mas ela, certamente, era estupenda. E isso no era simplesmente sexual. Ela possua um humor seco do qual ele gostava, era direta e prestativa, e amava seus ces. Ela nem se importava em ter plo de cachorro como um acessrio para suas roupas, o que por si s j a tornava perfeita.
Alm disso, a atrao que ele sentia por ela era inegvel.
A atrao que eles sentiam. Porque Brendan tinha certeza de que ela tambm estava sentindo a qumica entre os dois. As pausas estranhas, os silncios carregados, o senso de possibilidade eltrico que flua entre eles... Sim, ela tambm sentia.
O corao de Brendan batia forte sempre que sentia o aroma da pele de Lynne. Seu corpo inteiro se arrepiava sempre que ouvia aquela risada rouca. E o calor da mo de Lynne fazia-o imaginar como seria senti-la em suas partes mais ntimas.
Sim, fazia muito tempo desde a ltima vez que se sentira to atrado por uma mulher.
Mas no havia questo de que ele sentia atrao por essa. E ele sabia exatamente o que iria fazer a respeito.
- Depois do passeio pelo campo de batalha, iremos ao centro de visitantes - disse Brendan. -  melhor voc comear com o p direito.
- O comeo da minha educao sobre Gettysburg? - perguntou rindo.
Ele fez que sim com a cabea e sorriu em resposta.
- O comeo da sua vida em Gettysburg.
- Gosto de como esta frase soa - disse ela com grande satisfao. - Minha vida em Gettysburg.




CAPTULO QUATRO



Lynne iria se divertir hoje. 
Verificou mais uma vez sua mochila para ter certeza de que no esquecera nada vital, e olhou as horas. Caso no se atrasasse, Brendan chegaria aqui em um minuto, e ela apostaria todo o seu dinheiro na pontualidade dele.
Estava nervosa sem motivo. Isso no era realmente um encontro. Apenas um passeio de vizinhos. Ele estava grato por sua ajuda com Feather e queria recompens-la pelo jantar.
Era um encontro. Pelo menos, fora o que parecera quando ele oferecera seu CD e sua companhia. E, em seguida, planejara o dia inteiro deles. Lynne suspeitava que,  medida que o conhecesse melhor, descobriria um fantico por controle por baixo daqueles ternos escuros e gravatas elegantes que caam to bem em sua silhueta alta e slida.
Na hora exata, uma batida alta e segura soou na porta. Ela atravessou a sala e abriu a porta.
- Bom dia.
Feather passou na frente dela, e Brendan curvou-se para acariciar as orelhas da cadela.
-   Bom dia e bom dia. Como esta minha menininha?
Lynne teve certeza de que ele no se referira a ela na segunda frase.
- Ela fez o desjejum e pareceu contente hoje de manh. Eu realmente gosto de t-la por perto.
- Bom. - O sorriso dele foi largo e demonstrou alvio. - Tinha medo que ela pensasse que eu a estava abandonando.
Deus, ela achara que esse homem ficava bonito de terno, mas hoje, com uma camisa de moletom cor de vinho e calas jeans desbotadas, que aderiam s suas coxas musculosas, ele estava de tirar o flego.
Seus ombros pareciam ter um quilmetro de largura por baixo da camisa, e ele levantara as mangas para revelar antebraos musculosos cobertos por plos negros e sedosos.
Como ela no percebera, nesses ltimos dias, o quanto ele era alto? Ela prpria media quase l,80m, e quase no batia em seu queixo, de modo que ele devia ter quase l,95m.
- Os seus pais so altos? - perguntou ela.
Uma sobrancelha escura se levantou numa expresso que ela j vira muitas vezes, como se ele no tivesse certeza de como a conversa tomara essa direo.
- Meu pai . Minha me tem altura normal, mas tem trs irmos e todos medem mais de l,90m. - Ele estendeu uma das mos e tocou o ombro de Lynne. Voc tambm  alta. De onde veio a sua altura?
- Meu pai. Minha me mede apenas 1,57m. - Ela tentou rir. - No  fcil ser a menina mais alta da turma. Eu era mais alta do que minha irm mais velha antes de sairmos da escola fundamental.
- Gosto de mulheres altas. Minha namorada de escola era capit do time de basquete.
-  Nunca joguei basquete. Os treinadores sempre tentavam me convencer a entrar para o time, mas nunca me interessei. Eu era danarina. Durante muito tempo sonhei em me candidatar a uma das grandes companhias de bale. Mas finalmente aceitei o fato de que ningum vai querer uma bailarina que  mais alta e pesada que todos os homens que tero de levant-la.
- Voc no  mais pesada do que qualquer homem que eu conhea.
- Err...
Brendan? Sem querer ser rude, posso perguntar como voc saberia quanto eu peso? At onde voc sabe, posso pesar uma tonelada.
- Sem chance. - A mo que estava tocando seu ombro apertou a junta frgil e, como antes, ela ficou imediatamente cnscia do quanto a mo daquele homem era grande, e do quanto de sua pele a mo poderia cobrir caso ele estendesse os dedos.
- Voc  magra - sentenciou, correndo o polegar de sua clavcula at a linha de seu queixo. - Na verdade, eu diria que voc  quase magra demais.
- Eu no sou! - Imagine se ele a tivesse conhecido quando ela era modelo. E, ento, notou o sorriso levantando as pontas dos lbios de Brendan. Ela cerrou o punho e deu um soquinho leve no ombro dele.
- Est me provocando.
O sorriso ficou ainda mais largo.
- Espero que sim.
Espero que sim. Ele teria dito isso com duplo sentido? Ela estava tendo dificuldade de pensar. Qual seria a sensao de ter aqueles lbios em contato com os seus? De ter aquelas mos correndo por sua pele, pressionando-a contra aquele corpo grande e rgido?
- Gostaria de poder ver seu rosto - disse num tom intenso.
- Por qu? - perguntou, quase sem flego.
Ele virou sua palma para amparar a lateral do rosto de Lynne.
-  Eu daria tudo para saber como so os seus lbios.
O corao de Lynne disparou. E antes que conseguisse pensar em todos os motivos pelos quais aquela era uma m idia, ela segurou o dedo indicador dele e o levou at os lbios.
Em silncio, Brendan correu o dedo pelos lbios de Lynne, enquanto ela se mantinha imvel, hipnotizada pela sensao estranhamente ntima de senti-lo tocar seu rosto. Brendan correu o dedo pelos lbios de Lynne e, ento, o moveu at o queixo, deixando-o por alguns instantes na covinha que ela sempre detestara. Ento, ele prosseguiu, tocando-a ao longo do queixo ate a  orelha, onde circulou a concha frgil e em seguida puxou levemente o lbulo. Ela estremeceu, e ele deixou a orelha para explorar a parte posterior de sua cabea. Ela penteara os cabelos num coque intrincado do qual gostava porque continha os fios rebeldes por longas horas. Ele correu suavemente a mo por todo o coque at achar a ponta, que ficava sobre o pescoo. Enfiou a mo por baixo do n de cabelos e a ps em concha em sua nuca. Lynne sentiu que vacilava na direo dele, mas antes que pudesse completar o movimento a mo de Brendan movia-se de novo para a frente, at sua tmpora, cruzando o espao amplo de sua testa macia para, ento, descer a ladeira curta e reta de seu nariz. Ele penteou as sobrancelhas de Lynne, fazendo seus olhos tremerem... E, ento, a mo se foi. Ela abriu os olhos.
- Obrigado. Desculpe se me demorei.
- No h de qu. - Sua voz soou normal, comparada com os sentimentos que ainda fervilhavam dentro dela.
O principal desses sentimentos era decepo. Ela ansiara por um beijo dele. Estava pattica, ridiculamente encantada com seu vizinho de menos de uma semana. E ele, ainda que pudesse estar interessado nela, como uma fmea disponvel, decerto no parecia sofrer os mesmos efeitos que sua simples presena provocava nela.
- Descobri que se pedir s pessoas que descrevam a si mesmas, elas costumam ser muito pouco prestativas. Consigo uma imagem mais precisa tocando nas pessoas.
Portanto, ele fazia isso com freqncia. Ou, se no com freqncia, pelo menos quando estava conhecendo algum.
 como braile para ele, disse a si mesma. No necessariamente significara mais nada. Foi apenas sua maneira de aprender um pouco mais a meu respeito. 0 que na verdade  absolutamente justo, considerando que eu sei como ele .
Lynne sentia-se vazia como um balo de gs furado.
- Bem, agora voc sabe. Nada extraordinrio. - Ela pegou a mochila. - Est pronto para ir?
As sobrancelhas haviam feito aquele movimento engraado de novo ao ouvi-la, mas ele respondeu simplesmente:
- Claro.
Ela caminhou na frente at seu pequeno utilitrio esporte. Depois de um momento de hesitao, ele perguntou:
- Onde devemos colocar os cachorros?
- Eles podem ir atrs juntos, se voc puser um cobertor no banco para proteg-lo dos plos. H alguma maneira de impedir que eles sejam jogados para a tente, caso tenhamos um acidente?
Tenho uma rede de carga que se estende de lado iado logo acima do banco traseiro. Isso funciona?
-  perfeito. A escola nos ensina a coloc-los no piso, aos nossos ps, mas a maioria dos alunos que conheci discordava, alegando que  perigoso demais, no caso de uma coliso frontal.
Brendan removeu a guia de Cedar e deu uma palmadinha na parte interna da porta.
- Pulem.
Ambos os ces saltaram para dentro do utilitrio.
- Se estivssemos indo para mais longe, eu os deixaria num canil, para ficarem em segurana, mas o campo de batalha no  muito longe daqui.
Enquanto ela caminhava at o lado do motorista, ele correu uma das mos pelo lado do passageiro at alcanar a porta, e ambos sentaram ao mesmo tempo.
- Opa - disse ele quando os joelhos praticamente bateram em seu nariz. - Algum bem menor do que eu sentou aqui da ltima vez, no ?
Ela riu.
- Mame veio comigo para me ajudar na mudana. Voc vai achar uns botes automticos na lateral do banco.
- Tome - disse ele dando a ela um estojo com um CD. - Este  o passeio do campo de batalha. Saia na 116 em direo  Fairfield and Reynolds Avenue. Comeamos a uma pequena distncia da cidade  sua direita, logo depois do Seminrio Luterano.
Lynne seguiu as instrues e achou com facilidade a estrada certa. Quase imediatamente depois a vista se abriu para uma deslumbrante paisagem de campos e bosques. Canhes surgiam ocasionalmente em pequenas formaes, e ao longo das estradas havia vrias placas e esttuas. Alguns quilmetros diretamente  frente, um monumento grande, cercado por largos degraus de pedra, invadia a paisagem verde, ainda adorvel naquele comeo do outono. O Peace Light Memorial, explicou Brendan.
- Deve haver um recuo na estrada mais ou menos por aqui - disse Brendan. - Se voc parar ali, poderemos colocar o CD e iniciar o passeio. O CD vai conduzir nosso percurso.
-  Quantas vezes voc fez isso? - perguntou Lynne.
- Menos de uma dzia, mas o bastante para estar bem familiarizado com o caminho. Servi de guia aos meus amigos,  famlia de minha irm, a amigos que vieram me visitar, aos pais de meu scio...
- Ento, provavelmente, no precisamos do CD. 
- Bem, precisamos sim. - Ele riu. - Gosto muito de Histria da Guerra Civil. Se me pedir para narrar, o passeio pode durar trs dias em vez de trs horas.
Eles conversaram pouco enquanto Lynne dirigia o carro. Duas vezes Brendan pediu que ela descrevesse um certo monumento ou cena. Freqentemente ele acrescentou comentrios pessoais.
Lynne ficou absolutamente envolvida com a saga .Ele lhe mostrou Cemetery Hill, onde as foras da mo reuniram-se depois de uma humilhante derrota no primeiro dia de batalha. Havia Peach Orchard, Wheatfield, Little Round Top; nomes que ela vagamente reconhecia de suas aulas de Histria dos Estados Unidos no ensino mdio.
Ela sabia que iria se comover ao caminhar por um lugar onde tantos haviam morrido. Mas jamais esperava emocionar-se tanto com os monumentos erguidos para honrar os soldados. Lynne ficou particularmente impressionada com o memorial esculpido no cemitrio que descrevia o general confederado Armistead tendo seus ferimentos letais tratados por Henry Bingham, capito da Unio. Lynne chorou quando Brendan lhe contou sobre a amizade desenvolvida entre Armistead e o oficial de comando de Bingham, o general-de-diviso Winfield Hancock.
Mas o monumento do qual ela mais gostou foi o do estado da Virgnia, com seus soldados de patentes diversas reunidos na base e a escultura impressionante de Robert E. Lee montado em seu cavalo Traveler no topo da coluna.
- Dizem que  a representao que faz mais jus a Lee - comentou Brendan num tom quase reverente.
- Voc no estava exagerando quando disse que sabia muito sobre este lugar.
- Ele me fascina desde que eu era criana. Como estive aqui muitas vezes antes do meu acidente, ainda lembro de algumas coisas.
- Como isso funciona? Digo, sua memorial -Eis se calou por um instante para formular seus pensamentos. - Voc ainda tem lembranas claras ou elas se desgastaram com o tempo?
- Ainda tenho lembranas. Mas com o passar do tempo elas ficaram um pouco desbotadas. Pense numa pintura impressionista. Tenho o contorno geral e a idia, mas os detalhes esto sumindo. Uma das primeiras coisas que se desintegrou foi a caligrafia.
-  Mas como voc assina cartes de crdito e documentos?
- No costumo usar cartes de crdito. Eles podem ser trocados, clonados ou ter seus cdigos copiados bem na minha frente e jamais ficarei sabendo. Ando com dinheiro vivo sempre que posso, e fao muitas compras por catlogo e em lugares onde estabeleci relacionamentos e tenho uma conta mensal. Quanto a documentos, que, sendo advogado, preciso assinar com freqncia, tenho um cartozinho chamado guia de assinatura que me ajuda a escrever em determinado espao. Se voc usar um com freqncia, sua memria muscular ajudar a manter uma assinatura legvel e consistente.
No havia raiva ou mesmo resignao em sua voz, ele estava simplesmente comentando um fato. Mais uma vez ela ficou maravilhada com o quo pouco de sua vida parecia prejudicada por sua deficincia visual. Apesar do considervel nmero de mudanas que ele tinha sido forado a enfrentar, ele superara a maioria dos problemas com engenhosidade e elegncia.
Ao longo da Emmitsburg Road, onde os soldados confederados tinham sido obrigados a realizar um ataque suicida atravessando um campo aberto, subindo uma colina e passando por fortificaes temporrias da Unio, Brendan contou-lhe que fotografias do local depois da batalha mostravam homens enfileirados no cho, onde tinham sido abatidos.
- Foi insano. As tropas da Unio estavam no alto da cadeia de montanhas  sua frente. Elas esperavam os rebeldes chegar bem prximo e ento abriam fogo. Insano - repetiu, pesaroso. Ele contou sobre o ataque ftil de Pickett, depois do qual Pickett retornou a Lee com amargura e raiva. - Lee mandou que ele preparasse sua diviso para um contra-ataque - disse Brendan. - Pickett respondeu: "General, eu no tenho uma diviso."
Eles saram do carro algumas vezes para examinar monumentos erigidos por estados para honrar seus mortos. Lynne chorou novamente ao ver o tributo  Brigada Irlandesa, uma linda cruz celta com um wolfhound irlands, uma Has baixas da batalha, deitado em sua base.
Em Devil's Den, Brendan insistiu que eles escalassem as rochas. Eles deixaram Feather no utilitrio, mas Lynne ficou surpresa em ver a competncia com que Cedar conduziu Brendan atravs do emaranhado de rochas at o cume.
- Estou virado em que direo? - perguntou ele. - Parece Norte ou Nordeste.
Ela pensou por um momento enquanto cerrava as plpebras para proteger os olhos do sol de fim de outono.
- E . Como sabia?
- O sol est no meu rosto.
Ele a segurou pelo ombro e a virou para posicion-la levemente para o Leste, enquanto ele comeava a explicar os movimentos de tropas e ataques que determinaram o resultado da batalha.
-  Se a Unio tivesse perdido Little Round Top, os Confederados poderiam ter tomado Gettysburg. Na verdade, considerando a liderana soberba do general Lee e a falta de um general da Unio realmente forte e determinado,  muito provvel que isso tivesse acontecido. O resultado da guerra poderia ter sido diferente. E se Lee tivesse aceitado o pedido de Lincoln para liderar o Exrcito da Unio, eu, sinceramente, duvido que ainda houvesse uma guerra acontecendo em 1863.
O rosto de Brendan estava animado, o sol iluminando seus olhos azuis. Ela examinou seu rosto, querendo toc-lo como ele tocara o seu h algumas horas. Querendo mais que isso. Ela estava extremamente consciente de seu brao, que deslizara de seu ombro por suas costas e agora estava pousado em torno de sua cintura. Mesmo atravs do tecido de suas roupas, ela sentia sua mo imensa.
- Lynne? - disse Brendan. - Meu Deus, sinto Muito. Sou to chato assim?
- No! - exclamou, acordada de seus devaneios sensuais. - Voc no  nem um pouco chato. Eu s estava tentando... visualizar.
- E conseguiu? - Ele se virar para ela e estava bem mais prximo de seu espao pessoal do que ficaria um homem dotado de viso.
- Mais ou menos - respondeu ela, ofegante, quase para si mesma. - Acho que deveramos descer e seguir em frente.
- Tem razo.
Seria arrependimento o que estava ouvindo na sua voz dele?, perguntou-se enquanto escolhia cuidadosamente um caminho entre as rochas para o homem e o cachorro. Se Brendan tivesse alguma idia do quanto ela estava interessada nele! Era bobagem ser to obcecada com um homem. Quanto mais tempo Lynne passava com Brendan, mais ela queria estar com ele.
Passaram quase cinco horas no campo de batalha, e ela poderia ter passado mais cinco. Ela levara mas e sanduches de presunto, e eles pararam para lanchar sentados na parte traseira do utilitrio. Quando o sol comeou a descer para as montanhas que os cercavam, ela dirigiu de volta para casa.
- Obrigada - disse Lynne depois que eles haviam subido a escadaria at seu andar. Ela parou no centro do corredor, a meio caminho entre suas portas. - Foi absolutamente fascinante.
- Estou feliz por voc ter gostado. Algumas pessoas no esto nem a para a histria da regio.
- No posso imaginar como algum no acharia isso interessante. Da prxima vez, em vez de ouvir um CD, vou ouvir voc o percurso todo.
Assim que as palavras saram de sua boca, Lynne quis imediatamente afundar no cho. Ele no indicara, de forma alguma, que desejava passar mais tempo em sua companhia. Mas Brendan abriu um sorriso.
- Negcio fechado. - Seu relgio anunciou a hora, algo com que ela estava comeando a se acostumar. -  melhor eu ir. Tenho planos para um jantar esta noite.
- Tudo bem. - Jantar marcado. Seria uma dica para ela se afastar? - Eu tambm preciso ir. Eu...
- Lynne. - Ele a parou encostando um dedo em seus lbios. - Obrigado. - Ele pegou sua outra mo e a levou at os lbios.
Uau. Se ele estivesse tentando, no poderia fazer nada mais garantido de derret-la toda do que beijar sua mo.
Ela no disse nada enquanto seus lbios quentes acariciavam com firmeza as costas de sua mo; no seria capaz. Brendan recuou um passo e a soltou.
- A gente se v depois. - Ento, ele balanou a cabea e sorriu. - Falando figurativamente.
Foi s porque no conseguiu dormir naquela noite que ela o ouviu chegar em casa um pouco antes da meia-noite. Puro acidente, disse a si mesma, o fato de ter levantado da cama para fazer uma xcara de ch e ter decidido sentar na sala de estar e fazer sudokus at ficar sonolenta. E ela no o viu no domingo, embora o tenha escutado sair e retornar  tarde, depois que ela chegara da igreja. Ela tambm no o viu na segunda-feira.
Mas na manh de tera-feira seu telefone tocou um pouco depois dela ter acordado. Ela parou no meio de seu Pilates e atendeu ao telefone.
- Al.
- Oi, Lynne,  Brendan. - Ela j sabia, tinha visto seu nmero na tela do identificador de chamadas.
- Voc estaria interessada em ficar com Feather em algum momento desta semana?
- Eu adoraria. Tenho achado a casa estranha e silenciosa depois que me acostumei a ter um cachorro aqui.
- Sei como voc se sente. Certa vez, Feather precisou passar a noite na veterinria. No foi divertido ficar sem minha parceira, mas foi bem mais do que isso. Foi como ficar longe de um parente. Eu odiei.
- Fez uma pausa. - Bem, tenho de ir. Semana cheia. Vou lev-la em um minuto.
Ela mal tivera tempo de enxugar o rosto com uma toalha quando ouviu a campainha.
- Oi - disse ela, abrindo a porta.
- Oi. - Ele sorriu. - Mil obrigados. Eu a deixei sozinha em casa ontem e ela passou a noite inteira deprimida.
- Se voc quiser, ela ser bem-vinda para passar a semana inteira aqui.
Para surpresa de Lynne, ele fez que sim com a cabea.
- Eu realmente gostaria muito disso. Odeio deix-la sozinha o dia todo, vendo-a apenas em minha rpida passada aqui na hora do almoo.
- Tenho certeza disso.
- Fantstico! Tome mais comida de cachorro. Preciso ir. Ligue pra mim se tiver qualquer dvida ou problema.
Dias antes Brendan dera-lhe seu carto de visitas.
-  No vamos ter problema algum. Tenha um bom... dia. - Esta palavra foi dita para as costas de Brendan, enquanto ele dava um comando a Cedar e os dois caminhavam para a escadaria.
Bem, ele no devia estar exagerando quando dizia que estava ocupado.
Tera  noite Lynne compareceu a uma reunio do grupo de apoio comunitrio da biblioteca e, prontamente, foi recrutada para ser tesoureira, porque a mulher que ocupava o posto acabara de sofrer um acidente.
-  temporrio - assegurou o presidente. Contudo, o vice-presidente piscou para ela.
- Foi o que me disseram dez anos atrs - confidenciou.
Feather ficou empolgada ao v-la retomar, ainda que no tivesse passado fora nem mesmo uma hora. Ela ficou um pouco surpresa ao notar que Brendan no telefonara para saber sobre a cadela, mas presumiu que ele estivesse com trabalho at o pescoo.
Na manh de quarta-feira ela fez sua rotina de exerccios em casa e, em seguida, saiu para correr na Taneytown Road. Ela passou pelo Setor de Visitantes do servio do parque e pela extremidade sul do campo de batalha.
Brendan contara que durante os trs dias de combate, em julho de 1863, houvera embates e escaramuas, sem contar a grande batalha final, praticamente em toda a periferia da cidadezinha. Naquela poca, Gettysburg era um centro importante, com cinco estradas convergindo para ela. Com exceo de uma, todas contornavam ou cruzavam alguma parte do campo de batalha.
Segundo uma placa, a Rota 15 no ficava muito longe. Achou melhor retornar. Ela tambm vira uma placa para a fbrica da Boyd's Bear e um shopping center de ponta de estoque, e era melhor manter-se o mais longe possvel desses dois lugares.
Enquanto retornava,'reduziu o passo e caminhou pelo ltimo quarteiro at sua casa. Assim que chegou, seguiu para o chuveiro e para a balana. Ainda tinha o hbito de manter uma vigilncia rgida sobre o peso. Contudo, ultimamente sua preocupao era exatamente a oposta daquela de seus tempos de modelo. Agora tomava o cuidado de comer o suficiente para manter o peso saudvel que adquirira ao desistir da carreira.
E Brendan achava que ela era magrrima agora. Imagine se ele a tivesse conhecido antes...!
Brendan telefonou enquanto Lynne almoava. Mas pareceu apressado, e quando ela comentou que Feather estava bem, Brendan agradeceu e encerrou a conversa.
Na quinta e na sexta-feira o mesmo padro se repetiu. Na noite de sexta, ela estava sentindo uma pontada de decepo. Ele no chegara em casa s 19h. Ela concluiu que Brendan queria que ela ficasse com Feather at o sbado. Ento, Lynne ouviu os passos de Brendan no corredor.
Levantou-se abruptamente do sof no qual estivera enrodilhada lendo um livro. Feather, deitada ao seu lado, pareceu alerta, mas no se levantou.
E um momento depois, enquanto Lynne estava parada no meio da sala, tentando decidir o que diria quando abrisse a porta, ela ouviu a porta de Brendan ser aberta.
E ser fechada.
Muito bem, parecia que ele no estava muito ansioso para ver Feather, e muito menos ela.
Ele no disse que passaria aqui para ver voc.
Isso era verdade. Mas eles haviam se divertido tanto juntos no sbado anterior! Ela no imaginara a qumica entre eles, imaginara?
Irritada consigo mesma, foi at a cozinha e espalhou os relatrios financeiros da Amigos da Biblioteca. Eles haviam garantido que ser tesoureira do grupo no daria muito trabalho, mas se precisava autorizar pagamentos para uma organizao sem fins lucrativos, ela pretendia ler tudo para compreender o que estava fazendo.
Brendan telefonou na manh de sbado, quando Lynne fazia alongamento para se preparar para mais uma corrida.
- Bom dia! Aposto que voc pensou que eu havia abandonado a minha cachorra.
- De jeito nenhum. Voc disse que teria uma semana cheia. - E ele realmente dissera, mas ela no esperara que Brendan sumisse da face da Terra por cinco dias.
- Estou me preparando para um julgamento. Mal tive tempo para comer.
Houve uma breve pausa. Ela pensou em vrias respostas, mas antes de decidir por uma o silncio prolongou-se desconfortavelmente.
- Voc tem planos para hoje? - perguntou num tom que parecia indicar que ele no achara seu silncio estranho.
- No. Meu nico plano  correr esta manh. Pensei em visitar a fbrica da Boyd's Bears esta tarde. Colecionar ursinhos de pelcia no faz meu estilo, mas estou comeando a planejar as compras de Natal, e minha sobrinha ia adorar ganhar um.
- Natal - resmungou ele. - No me diga que voc  uma daquelas - disse num tom de galhofa.
- Uma daquelas o qu?
- Uma daquelas pessoas organizadas que passa o ms de dezembro inteiro tranqila enquanto o restante de ns tenta freneticamente comprar o que falta.
- Sou, admito. No h nada que eu odeie mais do que fazer compras em lugares cheios.
-  Concordo. J  muito difcil percorrer os corredores guiado por um cachorro. Tente fazer isso nas semanas antes do Natal e ver que  quase impossvel. Mas no foi por isso que liguei.
- No achei que fosse. - Ela estava se sentindo mais feliz simplesmente por ouvir a voz dele. - Deixe-me adivinhar. Quer sua cachorra de volta?
- No - respondeu. - Bem, eu quero, mas tambm no foi por causa disso que liguei. Gostaria de sair comigo para jantar esta noite?
Um encontro? Ele a havia convidado para um encontro? Pega de guarda baixa, Lynne no respondeu imediatamente.
- Lynne? - Ela achou notar um tom de incerteza em sua voz habitualmente segura. - Sei que provavelmente estou perguntando muito em cima...
- Eu vou adorar jantar fora com voc esta noite - Lynne apressou-se em responder. - Tem algum lugar em mente?
- A Dobbin House.  um restaurante local que serve refeies do sculo XIX num ambiente de poca.
- Eu vi os anncios e pensei que valeria a pena. Voc vai l freqentemente?
- No. - A voz dele alterou-se sutilmente, tornando-se um pouco mais sria. - No costumo ir muito.
O que tinha sido aquilo? O clima mudara claramente.
- Devo estar pronta a que horas? - Ela no queria que ele mudasse de idia.
- Que tal s seis e meia?
- Seis e meia, ento. Esperarei ansiosamente.
- E eu tambm. Senti falta de ver voc esta semana. - Seu tom estava caloroso novamente, e por um momento ela julgou ter imaginado aquela mudana breve. - Nos vemos ento.
Lynne desligou o telefone, ficou de p ao lado dele por um momento, e ento comeou a danar como uma boba pela cozinha. Ele tinha estado atarefado! E disse que sentira falta dela!
O resto do dia passou muito devagar. Ela lavou os cabelos e passou um longo tempo na banheira. Ela se permitiu muito tempo porque seus cabelos demoravam bastante para secar, mesmo quando usava um secador.
Seu grande dilema foi o que vestir. O que era interessante.
Vestir-se para sair com um cego. Se ele a tocasse, ela queria que ele achasse atraente a sensao provocada pelo tecido. Caso ele pudesse enxerg-la, ela tambm teria tomado mais cuidado com a maquiagem, mas se limitou a hidratar a pele e colocar um pouco de protetor labial. Ela estava naquela cidade para iniciar uma vida normal e, quanto menos se parecesse com sua antiga personalidade, menores seriam suas chances de ser reconhecida.
Deveria contar a Brendan. Logo. A esta altura ele a conhecia bem o bastante para que sua vida antiga no se tornasse um empecilho em seu relacionamento. Mas ela o conhecia h apenas uma semana e meia, lembrou a si mesma. No era como se estivesse guardando de propsito um segredo. Ela simplesmente ainda no tivera uma boa oportunidade de abordar o assunto. 
Finalmente eram seis e meia. A campainha tocou e ela se forou a caminhar - e no correr - da cozinha onde estivera sentada esperando at a porta.
- Oi - disse ao abrir a porta.
- Oi. - Ele estava segurando um enorme buqu de rosas de tons extraordinrios de vermelho, pssego e laranja, acompanhadas por algumas pequenas flores brancas, um verdadeiro nascer do sol em sua mo livre, que ele estendeu para ela. - So para voc.
- Brendan! - Ela falou. - So maravilhosas!
- Que bom. A mulher na floricultura descreveu vrios arranjos diferentes para mim. Este soou bonito.
-   absolutamente deslumbrante - ela assegurou.
- Obrigado. - Eles ainda estavam de p na porta, e ela recuou um passo.
- Por favor, entre enquanto eu pego um vaso para coloc-las na gua.
Ela correu at a cozinha e tirou de um armrio um grande vaso de vidro enrugado. Ela colocou os cabos das rosas debaixo d'gua e cortou-os rapidamente. Em seguida, disps as lindas flores no vaso.
Brendan seguira-a at a cozinha. Enquanto ela pegava o vaso para carreg-lo at a sala de estar e coloc-lo na mesinha de centro estreita, ele perguntou:
- O que voc est usando?
- Roupas ou perfume?
- Ambos. - Ele sorriu. - Voc est com um perfume delicioso, que me deixou curioso sobre como est vestida. Descreva-se para mim.
- No estou usando perfume. Voc deve estar sentindo o cheiro de meu sabonete. Acho que era lrio do vale. Descrever-me? Bem, sou alta...
-  Eu j sei disso. - Seu tom foi seco. - E magra.
- Esbelta - disse ela severamente. - Meus cabelos so longos e realmente lisos... - O que mais ela poderia dizer?
- De que cor?
- Louros. Bem claros. Meus olhos so azuis e minha pele bem clara, quando no estou bronzeada. Sem maquiagem, sou praticamente translcida.
- Difcil de imaginar - murmurou ele. - Continue.
- O que mais voc quer saber?
- Cabelos... qual o comprimento exato deles quando os deixa soltos.
- Anos atrs eles desciam quase at a minha cintura. Agora eles descem at um pouco abaixo dos meus ombros. Estou tentando deixar que cresam um pouco mais.
- Parecem bonitos.
Muito mais bonitos do que ruivos e cacheados, como ela os usava quando era modelo. Por um momento ela ficou horrorizada com a possibilidade de ter dito isso em voz alta, mas como a expresso de Brendan se manteve inalterada, ela deixou escapar um suspiro de alvio.
- Tenho ps grandes para uma mulher - admitiu.
-  normal para pessoas altas.  to difcil achar meu nmero que muitas vezes mando fazer sapatos sob medida. Conte-me sobre seu rosto.
- Meu rosto? O que tem ele? - Estava intrigada, e um pouco desconfortvel por ser o foco de sua ateno daquela forma. Estava acostumada a ter seus atributos fsicos analisados, mas jamais ningum lhe pedira para ela mesma fazer isso. Tambm estava acostumada com as pessoas observarem seu corpo, mas isso jamais a afetara num nvel pessoal dessa forma.
- Qual  a forma dele?
- Forma? No sei. Acho que comprido e magro. Oval, talvez?
- E eu j sei que voc tem malares altos e uma covinha linda no queixo.                                - Covinha que eu detesto.
-  Por qu?  sexy. Agora me diga o que est usando.
- Uma saia comprida e uma blusa de seda. Estou com um casaco de veludo no encosto do sof para usar esta noite. Sei que est quente para novembro, mas est frio para uma blusa fina.
- Voc se importa se eu tocar suas roupas?
- No me importo. - Ela segurou um pedao da saia e o guiou at a mo dele.
- Hum... Parece camura.
- No. Eu acho que  polister escovado.
Ento a mo de Brendan subiu pela dobra da saia que ela lhe estendera. Ele correu a palma levemente sobre o quadril dela at suas costas, e esfregou um pequeno crculo em sua blusa.
- Uau - disse ele. - Seda. Parece maravilhoso. Ela no tinha uma resposta imediata para ele. Seu corpo se enrijecera em antecipao ao contato de seus dedos, e ela estava quase tremendo. Bendito cu, o homem era poderoso! Se ele podia fazer isso com apenas o toque das pontas dos dedos, como seria se.... Pare com isso, Lynnel Mais uma vez, ela lembrou a si mesma que no estava procurando um relacionamento.
Ela tivera muitas oportunidades para isso quando trabalhara como modelo; e nenhum homem lhe interessara seriamente depois de Jeremy.
At agora.
Certo, ento Brendan era lindo, sexy demais para ter permisso de andar por a e tinha uma conversa mais agradvel do que qualquer pessoa que ela j conhecera. Isso no significava que ela ia se atirar sobre ele. Obviamente no.
Como era uma manh de temperatura amena para novembro e o tempo estivera limpo e seco durante toda a semana, eles decidiram caminhar os poucos quarteires at a Dobbin House.
Brendan deixara Cedar em casa, sabendo o quanto seria difcil o cachorro ficar fora do caminho das pessoas num restaurante.
- Pisaram no rabo do coitado todos os dias desta semana durante meus almoos de negcios - explicou Brendan.
Brendan carregava uma bengala branca, e ela ficou surpresa em ver a facilidade com que ele percorria as caladas irregulares da velha cidade.
- Se eu no pudesse ver aonde vou, provavelmente ficaria com os joelhos ralados de tanto cair.
- s vezes isso acontece. Mas como tomo muito cuidado nessas caladas irregulares, geralmente no me machuco. Mas sempre preciso me concentrar, esteja com o co-guia ou usando uma bengala.
-  Como voc aprendeu a usar a bengala? Voc freqentou alguma espcie de escola depois do acidente?
- No. Na Pensilvnia, o Departamento de Cegueira e Servios Visuais designa para voc um "treinador em domiclio". Infelizmente, os instrutores so designados segundo a caixa postal do deficiente visual, e nem todos so bons. De qualquer modo, s tive trs aulas.
- Trs aulas!
- Sim. - Ele resfolegou. - Tenho sorte. Minha famlia possua recursos para contratar uma instrutora particular por seis semanas. Ela foi imensamente til.
- Eu no consigo imaginar. - Como ele se manteve em silncio, ela teve de perguntar: - De que forma?
- Ela me ensinou como as coisas seriam mais fceis se eu aprendesse braile. Muitas pessoas que ficam cegas na idade adulta jamais aprendem. Mas agora tenho um marcador de rtulos especial e posso colar etiquetas em todas as minhas roupas para saber quais combinam entre si, quais so os temperos em cada frasco, coisas assim. Aprendi a usar um leitor de tela, que traduz mensagens digitadas, como e-mails e pginas da Internet, e tenho alguns aparelhos que facilitam minha vida, como meu relgio falante. Voc nem imagina todas as coisas que existem agora no mercado para cegos, embora a maioria no seja realmente necessria.
- Qual foi o seu maior desafio? Ele nem hesitou.
- Eu tive de me acostumar a usar muito mais meu tato e a decorar coisas como distncias e a posio dos mveis. Ouvir padres de trfego  outra habilidade cujo domnio exige muita concentrao.
- E quanto s pessoas?  frustrante tentar desobrir quem est falando com voc?                            |
- No costuma ser. - Com a bengala, ele encontrou a ponta do meio-fio, e parou no instante em que ela estava para segurar seu brao. - A no ser quando  algum que eu no vejo h anos, descobri que sou muito bom em reconhecer as vozes das pessoas.
- Eu acho que voc  extraordinrio - disse ela com sinceridade. - Acho que nenhum de ns sabe como reagiria diante de coisas como aquelas pelas quais voc passou. Mas eu jamais poderia fazer o que voc faz.
- Estou apenas vivendo - disse ele.                  
- Sozinho - completou ela. - Independentemente. Voc se sustenta, cuida de dois animais.
- A gente faz o que precisa fazer-disse ele. - Se voc me perguntar se eu teria conseguido lidar com a cegueira quando era adolescente, eu nem preciso pensar no assunto. Certamente no teria conseguido.
-  Se voc diz... - comentou ela, sem acreditar completamente. Ela fora sincera ao dizer que o considerava extraordinrio. Quanto mais se acostumava com Brendan, mais Lynne tinha dificuldade de lembrar que ele era cego. Ele era apenas... Brendan.
Ento, eles chegaram ao restaurante, e ela o conduziu cuidadosamente atravs da entrada. Depois que penduraram seus casacos, a garonete comeou a conduzi-los at uma mesa. Ento ele se virou para ela.
- Posso segurar seu brao? Voc poderia me guiar at nossas cadeiras.
- Claro. - Ela nem hesitou. - Bem... direito ou esquerdo?
- Esquerdo. Chama-se isso de tcnica do "guia com viso". Simplesmente mantenha o brao perto do seu tronco e me permita colocar a mo sob o seu cotovelo. Dessa forma voc estar um passo  minha frente, e eu poderei saber se estamos nos movendo para a frente ou para trs, subindo ou descendo degraus e rampas. E voc poder me impedir de ficar me chocando contra as coisas.
- Certo. - Ela se colocou na posio e esperou que ele segurasse seu brao esquerdo.
Brendan levantou a mo direita e procurou o cotovelo de Lynne. Ao fazer isso, os dedos de Brendan roaram nas costelas de Lynne e no lado de seu seio.
Uma rajada de calor trespassou o corpo de Lynne, que jurou ouvir um estrondo de trovo. Ela fechou os olhos. Ser que algum dia em sua vida ela estivera to fascinada por um homem?
- Lynne?
A voz dele soou grave e prxima  orelha de Lynne. Ela virou a cabea para ver sua boca a poucos centmetros de sua orelha. O que ela teria dado para eliminar esse espao de centmetros entre eles! Lynne pigarreou, determinada a tirar Brendan de seus pensamentos e voltar a se concentrar no jantar.
- Eu estava apenas esperando a garonete nos levar at a mesa - justificou-se Lynne, comeando a caminhar.
Ela parou quando ele estava ao lado de sua cadeira.
- A cadeira est diretamente  sua esquerda. O encosto est perto da sua mo esquerda.
Ele estendeu a mo e segurou o encosto da cadeira, acomodando-se com facilidade enquanto ela caminhava at sua prpria cadeira no outro lado da mesa. Mas quando olhou para Brendan, seu rosto estava franzido na expresso mais irritada que Lynne vira desde que ele tropeara nas caixas, uma semana antes.
- Qual  o problema? Ele deu de ombros.
- Nada. - Houve um momento de silncio tenso e, ento, ele suspirou. - s vezes fico irritado quando no consigo fazer coisas que deveria num encontro, como puxar a cadeira para voc. Ou abrir portas.
- Eu no gosto dessas coisas - garantiu Lynne. - Inclusive, ficaria ofendida se voc pudesse enxergar, mas voc  egocntrico a ponto de no notar isso.
Brendan soltou uma risadinha, e suas feies relaxaram.
- Do jeito que voc fala, est acostumada com homens assim.
-  Voc no conseguiria imaginar quantas vezes eu sa com um homem apenas para me sentir tratada como... um acessrio - disse Lynne, pensando em muitas de suas noites mais tediosas ao lado do play-boy mimado que a estivesse caando na poca. Houve um silncio curto.
- Aposto que voc saiu com muitos homens "egocntricos" - disse Brendan, um tom de curiosidade na voz.
Lynne ficou chocada ao compreender que ela quase esquecera que Brendan jamais a tinha visto, que ele no fazia idia de quem ela havia sido.
- No tantos - disse ela, tentando minimizar o dano. - Talvez eu apenas lembre desses homens com clareza porque tive encontros pssimos com eles.
- E quanto aos encontros bons?
- Bons? Eu tive alguns tambm.
- Algum em particular? - Seu tom foi leve, embora Lynne tenha detectado uma intensidade que ela no conseguiu definir completamente.
- Houve um homem que eu imaginei que seria um prncipe, mas acabou se revelando um porco.
- Sapo - corrigiu-a Brendan. - No conto de fadas, a herona beija um sapo.
- Eu sei, mas esse foi, definitivamente, um porco.
- O que ele fez para merecer essa alcunha?
Ela escolheu cuidadosamente as palavras, pensando em como conhecera Jeremy numa festa depois de um grande desfile em Paris.
- Eu o conheci quando era jovem e ainda um pouco impressionvel. Ele era ingls, e rico. Muito rico, e eu creio que sua famlia tinha certas expectativas para ele. Pensei que ele me amava, mas acabei descobrindo que ele gostava mais da forma como eu adornava seu brao do que do tipo de pessoa que eu era.
- Como descobriu isso?
Lynne torceu a boca e se obrigou a respirar com calma. Jeremy pertencia ao passado distante.
- Eu estava comeando a sonhar em me casar com ele. Quando percebeu isso, ele colocou em termos bem claros que eu no era adequada para ser sua esposa. Mas que, apesar disso, ele ficaria mais do que feliz em me ter por perto depois que se casasse.
Brendan deixou escapar baixinho uma palavra que fez com que ela levantasse as sobrancelhas.
- Voc merece mais que isso - acrescentou.
- Foi o que disse a mim mesma. - Reunindo coragem, ela disse: - E quanto a voc? Alguma porca no seu passado?
Ele sorriu.
-  No. Nenhuma porca. Na verdade, o porco fui eu.
- Como assim? - Ela inclinou a cabea, curiosa.
- Tambm j estive noivo.
Ele fez uma pausa, esperando por sua reao. Mas Lynne no disse nada, sentindo-se surpreendentemente ressentida por ele ter quase se casado. Um sentimento tolo, considerando que ela prpria estivera perto disso. Quando percebeu que ela no iria dizer nada, ele prosseguiu:
- Bem, simplesmente no estava dando certo, e eu terminei. Ela no queria romper, mas eu insisti. Assim, acho que eu sou o porco.
- Voc deve ter tido bons motivos. - Disso Lynne tinha certeza. Brendan no era o tipo de homem que magoaria algum sem necessidade.
- Eles me pareceram bons na poca.
Alguma coisa no tom de voz de Brendan fez Lynne perguntar:
- Mas agora voc se arrepende?
- Eu me arrependi, depois, e por um longo tempo. Mas...
A garonete chegou  mesa, e ele no terminou sua frase. A noite foi agradvel; a refeio, interessante.
A garonete usava saia comprida, avental e uma blusa de poca. A comida foi preparada e servida como teria sido um sculo antes.
Enquanto comiam, os dois conversaram sobre trivialidades. Brendan claramente no estava mais interessado em fazer revelaes pessoais, mas ela lamentou profundamente que ele no tivesse terminado aquela frase.
Contudo, ela no queria, fazer mais perguntas sobre o passado. Se ela continuasse a sond-lo, ele poderia fazer perguntas que tambm seriam constrangedoras para ela.
E ela no queria falar sobre seu passado. Seria fcil deixar escapar alguma pista a respeito de que ela era, ou tinha sido, algo mais que uma garota comum. Ela iria contar a ele, prometeu a si mesma. Um dia.
Mas seria to bom estar com algum que no a tratasse como A'Lynne, a top model raiva da capa da Sports Illustrated.
Depois do jantar eles caminharam de volta at seu prdio.
- Quer entrar para tomar um caf? - perguntou Lynne enquanto eles subiam as escadas.
- tima idia. Eu adoraria.
Brendan entrou no apartamento de Lynne e sentou-se no sof enquanto ela ia para a cozinha. Feather imediatamente apropriou-se de um lugar onde deitar - bem em cima dos seus ps. Enquanto trabalhava na cozinha, Lynne ouviu-o falar num tom gentil com a idosa cadela.
Alguma coisa em sua voz a fez lembrar da forma como seu pai falara com ela quando era pequena. Seu pai. Ela evitara pensar nele durante a ltima semana, mas o tom de Brendan derrubara suas barreiras mentais. Era possvel dizer tudo a respeito do pai de Lynne, menos que ele era um tomem qu no amava suas filhas.
Ela suspirou. Por que ele se sentia compelido a casar de novo? Lynne queria que ele parasse de se unir legalmente a cada mulher que aparecia em sua vida. No por causa de quaisquer direitos de herana dela e de sua irm; Deus sabia que Lynne tinha dinheiro guardado suficiente para viver confortavelmente pelo resto da vida, e CeCe era casada com um engenheiro de desenvolvimento de sistemas, dono de uma empresa muito bem-sucedida. Josh era um homem maravilhoso que CeCe conhecera na faculdade e que a adorava e aos dois filhos do casal.
Hum... Isso era algo em que pensar.
Embora seus pais no fossem um exemplo para casamento, CeCe estava casada com Josh havia nove anos, e estavam juntos h quase 14. E eles eram o casal mais feliz que Lynne conhecia.
Mas por que ela pensara nisso? A ltima coisa de que ela precisava era pensar em casamento. Que bobagem!
Ela levou uma bandeja com caf e xcaras at a sala de estar e colocou-a na mesinha antes de sentar no sof a uma distncia respeitvel de Brendan.
- Entregaram seu piano? - ele perguntou, depois de pegar uma caneca fumegante.
- Entregaram! Mal posso esperar pela semana que vem, quando comeam minhas aulas! - Ela estava se sentindo uma menininha, prestes a saltitar de entusiasmo. - Tenho praticado escalas e alguns exerccios que eu lembrava de minhas antigas lies.
- Logo, logo voc vai ser uma pianista de concerto.
- Quem me dera. J tocou algum instrumento?
- Trombone, na escola. Mas parei depois que entrei na faculdade.
- Nunca toquei nada numa banda, embora sempre tenha achado que seria divertido.
- E era. Minha escola era grande e minha band muito competitiva. Teve um ano que ns at marcha mos na Parada das Rosas.
- Puxa! Aposto que foi emocionante.
- Foi. - Ele riu. - Mas eu acho que esperar pela ocasio foi ainda mais. Passamos um ano e meio levantando dinheiro para irmos at l.
- Parece que as suas recordaes dos tempos de escola so boas.
- As suas no so? Ela sacudiu os ombros.
- Eu era mais alta que qualquer menino da minha turma do comeo do sexto ano em diante. Mesmo no ltimo ano, havia apenas alguns rapazes mais altos do que eu. Como no gostava de basquete, no tinha nada que me concedesse uma identidade. Eu amava bale, mas no era uma atividade na minha escola.
- Voc deveria ter considerado tornar-se modelo. Altura  um pr-requisito para a profisso, no ?
Ai, meu Deus,  a deixa perfeita, pensou Lynne. Mas ela ainda no estava preparada para contar a ele. Brendan parecia gostar de sua companhia agora. Ele gostava simplesmente dela... Lynne. Depois que lhe dissesse quem era, ela no teria como saber se ele estava reagindo a ela ou  sua imagem.
- Eu devia ter pensado nisso - disse Lynne em tom casual.
No era uma mentira, considerando que ela se tornara modelo puramente por acaso. Para ajudar a custear a faculdade, Lynne arrumara um emprego como caixa de banco. Certa vez, trabalhando num evento de caridade promovido pelo banco, Lynne chamou a ateno de um fotgrafo, que bateu uma foto dela.
- Acrescente a isso uma irm mais velha que era a capit das lderes de torcida e voc ter uma menina fadada  obscuridade na maior parte do tempo.
-  difcil imaginar isso - disse Brendan. - Eu acho que teria notado voc. Mesmo em meu estgio de adolescente bobalho.
- Voc acha? - perguntou com uma risadinha.
- Tenho certeza. - Ele pousou a xcara de caf. - Preciso ir. Terei de trabalhar amanh de manh. Ainda estou trabalhando nos ltimos detalhes do julgamento.
- Meu Deus, eu esqueci! - Ela pousou sua xcara e se levantou junto com ele, seguindo-o at a porta enquanto Feather dava voltas em torno das pernas dos dois. -Acabou?
- Acabou ontem. - Ele encostou a bengala na parede e, ento, entrelaando os dedos acima da cabea, espreguiou - Graas a Deus.
- O resultado foi bom, espero.
- Claro que foi. - Ele sorriu enquanto abaixava os braos. - Queria sempre poder dizer isso. Era um caso bem slido. Fraude de seguro.
-  Parabns! - Ela deu um soquinho carinhoso no ombro dele, sentindo a carne slida sob seu punho cerrado. - Por que no disse nada durante o jantar? Poderamos ter celebrado.
-  Eu no pensei nisso durante o jantar - disse Brendan. Ele estendeu os braos e pousou as mos grandes nos ombros de Lynne, esfregando de leve os polegares sobre o tecido sedoso de sua blusa. - Eu estava absorto em voc.
Ela estava estarrecida demais para falar Absorto nela? 
Antes que ela conseguisse encontrar palavras, ele enlaou com os braos e a puxou para perto de si.   
- Eu vou beijar voc agora.
No era uma pergunta, mas quando seu rosto se aproximou mais e seus lbios encontraram os de Lynne, ela no se importou. Ela ps os braos em torno do pescoo dele, uma ao que permitiu que ele a abraasse ainda mais forte, enquanto arrebatava sua boca com uma explorao firme e total que disparou rajadas de excitao por todo o corpo de Lynne.
Ela j sentira algo assim? Essa necessidade quase irresistvel de mandar a cautela s favas e se entregar quele homem? Ela j sentira que sua carne ameaava saltar de seus ossos caso um certo homem no a tocasse?
Uma das mos de Brendan deslizou pelas costas de Lynne, pressionando-a contra os contornos rgidos de seu corpo. Ela no conteve o suave arfado que escapou de sua garganta quando seus corpos se colaram completamente, encaixando-se como se tivessem feito com esse propsito.
Brendan afastou os lbios dos dela e salpicou uma trilha de beijos ferventes ao longo do queixo at a orelha de Lynne, onde encontrou um ponto to sensvel que os joelhos dela chegaram estremecer quando a lngua dele a acariciou ali.
-  Lynne. - Ele suspirou o nome contra a pele dela, arrepiando os pelinhos da carne macia de seus braos. - Eu estava ansioso por isso.
Ela sorriu enquanto deixava a cabea cair para trs, permitindo que ele deslizasse a boca ao longo de sua garganta.
- E eu estava ansiosa para que voc fizesse.
Ele deu uma risadinha, e ento sua boca buscou novamente a dela.
Ele a beijou com fora e profundidade, esfregando repetidamente seu corpo contra o dela. Lynne estava to excitada que se contorceu contra ele e gemeu.
Finalmente Brendan recuou lentamente, deixando o corpo de Lynne latejando de desejo.
- Preciso ir - disse rouco, ainda segurando-a levemente. - Antes que eu a incite a fazer alguma coisa para a qual no est preparada.
Ela se sentiu inacreditavelmente tocada pela considerao dele.
- Eu no estou - confirmou Lynne. - Mas voc, provavelmente, conseguiria fazer eu mudar de idia - acrescentou com honestidade.
Ele gemeu. Baixando a cabea, pressionou um ltimo beijo vigoroso na boca de Lynne.
- Voc precisa deixar a coisa mais dura?
No momento em que ele disse isso, um silncio denso caiu entre eles.
- M escolha de vocabulrio - comentou, embaraado, enquanto se afastava dela.
Ela riu, deliciada com sua franqueza.
- Vamos deixar para nos preocupar com isso em outra ocasio.
- Deus, espero que sim - disse com fervor enquanto pegava a bengala e tateava em busca da maaneta da porta. - Ligo para voc amanh.
Brendan entrou no apartamento e parou no meio da sala. Cedar estava fechado dentro da cozinha, e o metal comeou a tilintar quando o co antecipou sua libertao.
- Estou indo, companheiro.
Libertado da cozinha, Cedar foi enroscar-se alegremente entre as pernas de Brendan, que acariciou sua ampla cabea.
- Tambm amo voc, companheiro - disse em voz alta. - Mas, com certeza, no  voc que eu gostaria que estivesse me tocando agora.
Ainda ofegante depois de seu momento com Lynne, Brendan prendeu uma correia  coleira de Cedar. Em seguida desceu com o cachorro ao parque dos fundos do prdio.
No estivera procurando por um relacionamento. Na verdade, depois de muito tempo sem tentar aproximar-se de mulheres, Brendan comeara a pensar que talvez sua falta de interesse se devesse ao fato de no poder mais enxerg-las.
Agora sabia que no poderia ter estado mais enganado. Simplesmente no conhecera a mulher certa.
Entrou novamente em seu apartamento, ainda excitado pela mera lembrana das curvas suaves e da boca adocicada de Lynne. No ficaria satisfeito com nada menos que sua linda vizinha deitada sob ele na cama, pernas compridas e bem torneadas envolvendo seus quadris, corpo arqueando contra o seu enquanto ele lhe proporcionava prazer.
Isso sim seria satisfatrio.
Abaixando a mo, caminhou nu pelo corredor at o banheiro. Jamais gostara de banhos gelados, mas esta noite seria uma exceo  regra.






CAPTULO SEIS


No dia seguinte, ao voltar da igreja para casa, Lynne encontrou uma mensagem de Brendan na secretria eletrnica. Ela gostaria de caminhar pela Michaux State Forest?
Sim! Lynne sentiu o corao saltar dentro do peito ao ouvir a voz de Brendan, e seus dedos tremeram enquanto ela discava o nmero de seu telefone.
Quando atendeu ao telefone, Brendan soou estranhamente tmido ao repetir o convite.
- S tem um problema - disse ele.
- E qual ?
- Voc ter de dirigir.
- Ora, eu no me importo de dirigir - respondeu prontamente. Se ela teria de dirigir para passar a tarde com ele, Lynne poderia atravessar o pas.
A caminhada foi agradvel, estando o tempo ainda ameno. A trilha era espaosa e linear, de modo que no apresentou dificuldades a Brendan e Cedar. Contudo, a primeira metade foi quase completamente apenas subida, e quando eles finalmente chegaram a um plat, ela estava praticamente sem flego.
Mas Lynne notou que Brendan no parecia nem ter suado.
- No  justo - disse ela. - Como voc consegue fazer isso parecer to fcil?
Ele sorriu. Usava uma cala jeans que envolvia os contornos fortes de suas coxas e - embora ela tenha tentado no olhar - moldava uma protuberncia em seu zper. Sua camisa de moletom verde-claro destacava a pele bronzeada e os cabelos negros. Lynne teve de admitir que sua falta de flego no se devia apenas  subida.
- Exerccio regular -justificou ele.
- Ei! Eu me exercito regularmente!
- Talvez eu apenas tenha naturalmente melhor forma fsica que voc.
Ela resfolegou, mostrando-lhe sua opinio a respeito daquilo. Ele riu. Ento virou-se e fez um gesto para a paisagem diante deles.
- Conte-me o que voc v.
- Como voc faz isso? - inquiriu, caminhando at o lado dela.
- Como fao o qu?
- Como sabia de que lado fica a vista?
- Eu bem que gostaria de dizer que posso senti-la, mas h uma explicao lgica. Ns subimos a colina e eu me virei para falar com voc. Mas Cedar ainda est parado na mesma posio em que estava quando chegamos ao cume. E como j estive aqui antes, sabia que a vista aberta estava bem  frente e no topo da trilha. - Ele segurou a mo de Lynne e entrelaou os dedos com os dela. - Ento, diga-me o que voc v.
Ela pigarreou, tentando pensar atravs da neblina de desejo que anuviava seu crebro.
- Ah... agora quase todas as rvores esto desfolhadas e seus troncos conferem um tom meio prateado  montanha.  um dia bonito e o cu est muito, muito azul. L no fundo do vale, entre as duas montanhas, tem um rio, e como tivemos um vero mido, o nvel da gua ainda est alto e h poas de brancura nos locais onde pequenas cachoeiras se formaram.
-  Imagens muito bonitas. Estive aqui com meu colega de turma da escola antes do acidente. Ainda consigo visualizar a paisagem, mas  agradvel ouvir sua descrio. Realmente traz as lembranas de volta.
- O seu colega ainda mora nesta rea?
- Ainda.  com ele que eu trabalho.
- Ento foi isso que atraiu voc a Gettysburg.
- Foi isso que me atraiu a Gettysburg - confirmou. Ele pegou a guia de Cedar. - Acho melhor comearmos a descer. Tenho um jantar marcado para esta noite. Na verdade, um jantar de negcios, e terei de cuidar dos preparativos.
Enquanto desciam a colina, ela se deu conta de que estava muito feliz. Ele no a convidara para fazer nada naquela noite, mas revelara o porqu, em vez de deix-la na dvida se haveria ou no outro encontro.
No  dia seguinte, ela se apresentou pela primeira vez como voluntria para trabalhar num restaurante comunitrio local. Os outros voluntrios eram, em sua maioria, aposentados que se conheciam h anos, mas receberam-na to bem que, ao lavar e guardar o ltimo prato do dia ela teve a impresso de estar ali h muito tempo. Quando souberam que ela dispunha de tempo e estava interessada em prestar mais servio comunitrio, prontamente recrutaram-na para o grupo que passaria o resto da semana entregando refeies a pessoas que no podiam sair de suas casas.
Ela suspeitou que Brendan estava tendo mais uma semana muito atarefada porque no teve notcias dele por dois dias, e ficou feliz por tambm estar ocupada. Ela no recebera ainda nenhuma notcia sobre a entrevista de emprego na pr-escola. Na segunda-feira Lynne compareceu a uma reunio da comisso executiva de seu grupo de biblioteca, onde aprendeu mais do que imaginara ser possvel a respeito do custo de transferir textos histricos selecionados para CDs. Naquela noite, ela pegou uma escova que Brendan mandara, junto com a comida de Feather, levou a cadela at os fundos do prdio e ali lhe aplicou uma escovada completa. Calculou que se guardasse todo o plo retirado de Feather, em um ano teria o suficiente para tricotar um suter.
Lynne teve sua primeira aula de piano na tera-feira. Naquela noite, estava fazendo um novo exerccio de escala quando a campainha tocou. Quase quebrou o tornozelo ao correr at a porta, porque Feather disparou na sua frente e ela estava determinada a chegar primeiro. Mas decidiu que valera a pena quando abriu a porta para ver Brendan parado no corredor, parecendo ridiculamente bonito e gostoso num terno preto com camisa branca e uma gravata cor de vinho de estilo conservador.
- Oi - disse ela.
- Oi. Ouvi msica?
Ela fez que sim, e ento lembrou de falar.
- Sim. Tive minha primeira aula de piano esta tarde. Gostaria de entrar?
Ele fez que no com a cabea.
- Preciso voltar ao escritrio. Mas eu me perguntei se voc gostaria de me acompanhar a um concerto amanh  noite. A apresentao ser de um quarteto de jazz bastante conhecido.
-  Parece um timo programa. Eu adoraria - Brendan acaba de me convidar para sair com ele de novo!
- Baterei na sua porta por volta das sete horas - prometeu. - O concerto comea s sete e meia, de modo que teremos tempo da sobra para caminhar at l. Ser na escola.
Na noite seguinte ele chegou pontualmente, e eles caminharam at a escola para uma noite de jazz. Cedar passou o tempo todo deitado aos ps de Brendan, aparentemente adormecido.
- Eu no consigo acreditar que o Cedar no fica incomodado com a msica - comentou Lynne no intervalo.
- O casal que o criou quando filhote costumava lev-lo aos concertos de rock dos seus filhos. Desde ento ele  f de msica.
- Um cachorro culto! - disse rindo.
Depois do concerto eles voltaram a p para casa, para o prazer absoluto de Lynne, Brendan mandou Cedar ficar parado e a beijou diante de sua porta, explorando sua boca e puxando-a contra seu corpo rgido por tanto tempo que em dado momento ela teve de se afastar dele para respirar.
Ele encostou a testa contra a dela.
- Voc  muito estimulante, moa.
- Obrigada - disse ela. - Acho.
- Estarei muito enrolado amanh e na sexta-feira, mas se voc quiser ficar comigo no sbado, estarei a seu dispor.
- Preciso fazer algumas compras de Natal nos shoppings de ponta de estoque - disse Lynne. - Nada divertido, mas necessrio. Se quiser, pode vir comigo.
- Seria timo. Voc pode me ajudar a escolher presentes para minha me e minha irm.
- Mas eu no as conheo! - protestou. - Como vou saber do que elas gostariam?
- Eu sei o que quero e os tamanhos delas. Voc pode ser minha consultora de moda e cores.
- Posso tentar. 
Na noite de tera-feira, Lynne saiu para o corredor enquanto Brendan abria a porta dele. Ela o convidou para jantar, mas ele teve de recusar porque teria de voltar ao escritrio para uma reunio s 19 horas.
- Vai viajar no Dia de Aes de Graas? - perguntou Brendan.
- Sim. Minha irm me convidou e a minha me para o jantar. Ser que voc me deixaria levar Feather? Prometo que no vou deixar meu sobrinho e minha sobrinha atazanarem a coitadinha.
- Isso seria timo. - Ele estivera preocupado sobre como os dois ces iriam se comportar na casa de seus pais. O pai de Brendan iria peg-lo de carro no dia seguinte.
- Isso  timo! - disse ela. - Como s vou sair na quinta de manh, vou dormir l apenas uma noite.
- No tem problema. - Ele se aproximou mais, enlaou-a pela cintura e apertou-a gentilmente. - Venha c e me d um beijo de despedida.
- At logo.
Quando os lbios dos dois se encontraram, Brendan pde senti-la sorrir.
Na manh de quarta-feira, Brendan teve de ir at o tribunal de Franklin County em Chambersburg, que ficava a quase uma hora de viagem. No demorou tanto quanto o esperado, porque Brendan pegou uma carona com um policial local que precisava ir at l para um julgamento, e o sujeito dirigia como um corredor das 500 milhas. Mesmo sem enxergar, Brendan percebeu que eles estavam se movendo muito acima do limite de velocidade.
O policial sintonizou o rdio numa estao de msica clssica e comeou a cantar bem alto, junto com a msica. E desafinado! Brendan no ficaria surpreso se Cedar, que estava viajando na traseira do utilitrio, ao lado do co de patrulha do policial, tivesse comeado a uivar.
Quando passaram pelo desvio para a Michaux State Forest, os pensamentos de Brendan imediatamente desviaram-se do caso que ele deveria estar revisando para o fim de semana anterior. Para Lynne.
O passeio de compras no sbado transcorrera bem, na medida do possvel. Ele odiava fazer compras desde que ainda enxergava. Mas, ao lado de Lynne, fazer compras foi uma experincia bem mais agradvel. Ela o ajudou a comprar seus presentes, e caso tenha se incomodado com o tempo extra que isso exigiu, no demonstrou. Na verdade, de todas as pessoas que ele conhecera, ela era uma das que lidavam melhor com sua deficincia visual. Como sua prpria me, que ficava grudada nele sempre que ele a visitava, perguntando-lhe ansiosamente como poderia ajud-lo.
Durante muito tempo Brendan sentira-se incomodado com a atitude de sua me, mas agora simplesmente tentava ignor-la, ciente de que sua irm estava sentada do outro lado da sala, sorrindo. Sua irm, Jeanne, casada e com duas crianas, costumava ser o objeto da necessidade quase compulsiva de sua me por ajudar, de como ela adorava a folga desfrutada quando ele vinha para casa.
Lynne, por outro lado, jamais se via no dever de fazer qualquer coisa. Se ele precisava de ajuda, ela reagia com naturalidade. Quando no entendia alguma coisa, fazia perguntas adequadas. Brendan tinha certeza de que Jeanne iria gostar dela.
Queria lev-la para casa para apresent-la  famlia, talvez no Natal, embora ainda no houvesse lhe dito isso. Conheciam-se h trs semanas. Apenas trs semanas... E durante essas trs semanas descobrira-se completamente despreparado para as emoes causadas pela mulher alta e de modos calmos que vivia do outro lado do corredor.
Brendan estava caminhando por um saguo no segundo andar quando ouviu a voz de uma mulher.
- Brendan?
Ele parou, instantaneamente arrebatado pelo passado, mas inseguro se estava imaginando coisas.
-  Ol?
- Brendan. - A voz aproximou-se mais, e ele ouviu os passos leves de uma mulher. - E Kendra. Desconfiei que era voc, e ento vi seu cachorro e tive certeza. Como vai? O que faz aqui?
Sentiu a mo de Kendra tocar seu antebrao, e automaticamente levantou a sua para apertar a dela.
- Estou bem. Vim at aqui para cuidar de um caso. Como vai voc? Faz muito tempo que no a vejo.
Ela se calou, e um momento de constrangimento transcorreu enquanto ela recordava claramente a, ltima vez em que o vira.
- Vim renovar meu passaporte. Joe e eu estamos querendo viajar at a Irlanda para visitar minha av. Lembra dela?
Ele se lembrava. A av de Kendra era uma mulher pequena e vigorosa que viera passar o Natal aqui certa vez, quando eles ainda estavam na escola.
- Lembro. Ela vai bem?
-  Sim. Vamos at l porque... Bem, estou grvida. O beb nascer em fevereiro, e queremos que ela o veja. Vov no tem mais idade para viajar de avio.
- Parabns - disse ele com um sorriso sincero. - Voc estar bem ocupada no ano que vem.
- Sim. E mal posso esperar por isso. Estou torcendo por uma menina, mas sei que depois que tiver este beb em meus braos no irei dar a mnima para seu sexo. - Sua voz borbulhava com entusiasmo, mas Brendan notou tenso por baixo do tom alegre.
- Estou realmente feliz por voc, Kendra - disse Brendan. - Queria apenas que as coisas tivessem sido diferentes. Eu fui um calhorda.
- Voc no foi um calhorda - disse ela com um tom gentil. - Voc era um homem lidando, da melhor forma que podia, com um acontecimento que mudou sua vida. - Sua voz mudou, adquirindo um tom provocante. - Claro que quem saiu perdendo foi voc.
- Tem razo. Joe  um sujeito de sorte. - Ele sorriu. Embora suas vidas tivessem tomado rumos muito diferentes daqueles que haviam planejado trilhar juntos, Brendan guardava lembranas felizes de suas juventudes.
- Esse cachorro  novo? Da ltima vez que o vi, voc tinha uma golden retriever.
- Feather. Acabo de aposent-la. Este aqui  o Cedar, e ele est fazendo um belo trabalho.
Brendan contou-lhe mais sobre Cedar, e depois de mais algum minutos de conversa ela se despediu dele com um beijo na face.
Logo depois disso ele foi convocado para a audincia e no teve tempo de pensar no encontro at a viagem de volta para casa, ouvindo o policial Depree cantando "These Boots Were Made for Walking".
Quando chegasse em casa, seu pai, provavelmente, estaria  sua espera. Brendan e Cedar iriam passar alguns dias na casa dos pais dele, que lamentava que Lynne no pudesse acompanh-lo.
E Brendan subitamente se deu conta do quanto pensara em Lynne nos ltimos dias. Seu encontro com Kendra no lhe causara qualquer sofrimento, como da vez em que fora at sua casa para dizer que a queria de volta... apenas para descobrir que ela havia se casado.
No, dessa vez ele se sentira genuinamente feliz por ela. Brendan agora tinha Lynne, e a antiga mgoa desaparecera. Na verdade, era quase impossvel comparar seus sentimentos juvenis por Kendra com os que comeava a nutrir por Lynne. Diabos, ele estava realmente comeando a pensar naquela palavra com "C"?
Casamento. Em sua juventude, considerara o casamento uma obrigao. Todo mundo crescia, se apaixonava e casava. Pelo menos essa era a viso simplista que tivera do mundo naquela poca.
Gostara de Kendra. Mas seu relacionamento fora baseado principalmente em atrao sexual. Com Lynne havia mais.
Eles tinham alguns interesses em comum e gostavam das diferenas entre eles.
Lynne ficara feliz quando ele ganhara seu ltimo caso; Brendan ficara deliciado quando ela voltara a tocar piano. Ele tentava fazer com que ela risse pelo simples prazer de escutar o som musical, e apreciava o fato de que ela no via sua cegueira como uma coisa que o tornava inferior ou diferente.
Ele no fizera amor com ela... ainda... mas tinha certeza de que, quando fizesse, a exploso poderia ser vista na China. Ento, sim, atrao fsica, definitivamente, fazia parte da equao. Ele mal podia esperar para lev-la para a cama, porque seria mais um elo entre eles, alm de a melhor coisa que teria acontecido com ele em toda sua vida adulta.
Desde que decidira afastar-se de Kendra, Brendan deixara de pensar em casamento. Mas, agora... agora o sonho tinha rosto e voz.
Podia imaginar-se morando com Lynne, compartilhando os pequenos momentos que compunham uma vida a dois.
E filhos! Brendan mal conseguia conter sua expectativa. Ainda no a pressionara, mas isso estava prestes a mudar. Tanto porque queria atra-la para si com tanta fora que ela jamais conseguiria se afastar dele, quanto porque sua pacincia comeava a se esgotar.
Brendan queria saber tudo a respeito de Lynne, mas ela era surpreendentemente reservada para uma mulher. Lynne s dava informaes sobre si mesma quando ele fazia perguntas diretas. Brendan sabia que ela mantinha uma parte oculta para ele... e para todos.
Brendan queria conquist-la e mant-la ao seu lado at que os dois estivessem bem velhinhos, sentados lado a lado em cadeiras de balano na varanda da frente de um asilo. Portanto, ela precisaria abrir mo dessa pequena tendncia a esconder coisas.
Como Brendan previra, seu pai estava  sua espera quando ele retornou. E para sua profunda decepo, Lynne no estava em casa. Ele no havia percebido at agora o quanto quisera apresent-la a seu pai.
Feather latiu de dentro do apartamento de Lynne. Ele falou com ela atravs da porta, antes de sair, sentindo-se vagamente culpado, embora soubesse que Lynne j a amava e que tomaria conta da cadela to bem quanto ele o faria.
Mas foi com alguma relutncia que ele deu o comando "Avante" a Cedar e comeou a sair do prdio atrs de seu pai.
O Dia de Ao de Graas na casa de CeCe tinha sido um redemoinho de desfiles, tortas de abbora e crianas animadas que passavam o tempo todo pedindo para que ela brincasse com eles.
- S mais uma vez, tia Lynnie? Por favor?
Como ela poderia resistir a isso? Sua sobrinha se afinou muito bem com Feather, principalmente depois que ela explicou que Feather era uma senhora mais velha e que provavelmente no gostaria de passar muito tempo correndo atrs de bolas ou pelo quintal.
No todo, tinha sido uma visita extremamente agradvel. Como ela e CeCe no comentaram nada com a me a respeito do casamento mais recente de seu pai, o fim de semana foi bem tranqilo. Elas tentariam segurar a informao at depois do Natal. Ento, lhe contariam tudo, e com sorte sua fria passaria antes do prximo grande encontro de famlia.
Na tarde de sexta-feira, depois de ter subido com sua bagagem, Lynne bateu na porta de Brendan, mas ningum respondeu. Bem, ele devia estar trabalhando.
Mas ela no ouviu seus passos nem na sexta nem no sbado. Ele devia estar passando o feriado de Ao de Graas inteiro fora. Profundamente decepcionada, ela se flagrou contendo lgrimas vrias vezes.
Mais uma vez ela parecia estar presumindo demais.
Ela lembrava vividamente da conversa que eles tinham tido sobre o Dia de Ao de Graas. Ela contara seus planos... mas no ouvira os dele. Em retrospecto, isso tinha sido um sinal bem claro de que ele no estava pronto para intimidade em um nvel mais profundo.
E Lynne disse a si mesma que no via qualquer problema nisso. Estava apenas decepcionada porque eles haviam passado muito tempo juntos.
Ela conversara com seu pai na noite anterior. Bem, principalmente ela havia escutado o pai falar pelos cotovelos sobre a noiva. Ele pensava que estava apaixonado. E realmente parecia. Mas ela sabia que no iria durar. O que a fez se perguntar se ela poderia confiar em seus prprios sentimentos.
Nesse momento, sentia-se profundamente atrada por Brendan.
Ela podia sonhar acordada com uma casa com cercas brancas perfeitas, dois filhos e um utilitrio na garagem. O cachorro era certo. Mas...
Eu no o possuo, nem quero possu-lo.
Certo. Grande mentirosa.
Ela suspirou. No podia negar que considerava Brendan imensamente atraente...
Toe! Toe! Toe!
- Eu sei que voc est a dentro.
Breve silncio.
Ento os estrondos, que ela finalmente compreendeu serem as batidas altamente entusiasmadas na porta, recomearam.
- Abra, Brendan. - A voz era de homem, grave e frustrada. - Acabo de ficar sabendo que Kendra est grvida, e sei que ela lhe contou. Voc est bem?
Gravidez? E que Kendra era essa? Por que Brendan ficaria irritado com isso? Ela subitamente sentiu um n no estmago.
Oh, pare com isso! Deveria haver uma dzia de explicaes. Feather escolheu esse exato momento para comear a latir.
- Feather! - sussurrou Lynne, tentando no deixar que o visitante soubesse que havia algum ali. Mas a cadela no a atendeu. Ela correu at a porta e comeou a ganir e a soltar latidos altos e agudos. Lynne nunca vira a cadela comportar-se to mal.
As batidas na porta de Brendan pararam. E, ento, Lynne pulou de susto quando a pessoa no corredor transferiu o punho para sua porta.
-- Feather?  voc, Feather? Ei, Brendan, se est a abra essa porcaria de porta!
Bem, se a cadela gostava dele, o estranho no poderia ser perigoso. Ela destrancou a porta.
No momento em que abriu a porta, Feather saiu correndo at o homem parado no corredor. To alto quanto ela, era louro, fortemente bronzeado e dotado de feies msculas, com sobrancelhas espessas sobre penetrantes olhos azuis. Se eles no estivessem em Gettysburg, ela juraria que ele acabara de chegar da praia com sua prancha de surfe.
- Ei! - exclamou o homem como saudao. Ele se ajoelhou, e Feather deitou de costas para que ele fizesse carinho em sua barriga. - Como est minha menininha? Sentiu saudades de mim, Feather?
Ele levantou os olhos para Lynne e sorriu, aparentemente no se importando a mnima por ela t-lo ouvido falar com a cadela como se fosse um beb.
- Desculpe. Eu e Feather somos amigos especiais.
- Estou vendo. - Ela estendeu a mo direita. - Sou Lynne DeVane.
Ele se levantou e apertou sua mo com firmeza por um momento.
- Eu sou John Brinkmen, Brink para os amigos. Brendan e eu trabalhamos juntos. - Ele examinou-a descaradamente dos ps  cabea. - Voc deve ser nova aqui. O vizinho do Brendan que morava aqui antes era baixo e grisalho e... certamente, no parecia nem um pouco com voc.
Ela assentiu positivamente, insegura quanto ao que dizer, mas o amigo de Brendan mal parou para respirar.
- Sabe onde ele est?
Ela fez que no com a cabea.
- Brendan j tinha sado quando cheguei na sexta-feira, e desde ento no falei com ele.
O sorriso de Brink diminuiu um pouco.       
- Ento, por que voc est com a cadela dele?
-  Feather tem passado a maior parte do tempo aqui desde que me mudei. - E por que ela estava se explicando a este homem cujos olhos pareciam cada vez mais desconfiados? - Ela estava com cimes de Brendan com Cedar, e parece preferir ficar aqui. - Ela se ajoelhou e chamou a cadela, que logo obedeceu e sentou ao seu lado. - Eu adoro ficar com ela.
A expresso de Brink relaxou.
- Entendo. Ele me disse que estava tendo alguns problemas em integrar Cedar na equao. Mas queria saber por que ele nunca me falou de voc.
Ela deu com os ombros.
- No h nada para falar. Ele  um bom vizinho. - E o meu nariz, provavelmente, est crescendo. Nada para falar uma ova.
Uma sobrancelha loura se levantou.
- Entendo.
Ela, sinceramente, esperava que no. No havia nada pior do que parecer uma boba apaixonada, especialmente na frente dos amigos mais ntimos do objeto de seu afeto.
- Eu gostaria de deixar um recado para o Brendan. Diga a ele que eu estive aqui. - Brink brandiu um celular. - Deixei mensagens de voz para ele o dia todo, mas ele no respondeu.
Ento ele fez uma pausa e olhou intrigado para ela.
- Ns j no nos conhecemos? Voc me parece estranhamente familiar.
Um alarme soou na cabea de Lynne.
- No. - Ela levantou as mos. - Muita gente fala isso. Eu devo ter um daqueles rostos comuns.
Brink ainda a estava examinando.
-  Talvez. - Ento ele sorriu e estendeu a mo novamente. - Foi um prazer conhec-la, Nova Vizinha Lynne. Obrigada por transmitir meu recado a Brendan.
-  No tem de qu. Tambm foi um prazer conhec-lo.
Mas enquanto conduzia a cadela de volta ao seu apartamento, Lynne s conseguia pensar no que ouvira. Quem era a tal grvida, Kendra? E por que Brendan no gostaria de saber dessa notcia? Havia uma resposta bvia: um homem que no queria ser pai no ficaria feliz em saber que uma mulher esperava um filho dele.






CAPTULO SETE


                 
Uma hora depois, quando Lynne estava quase indo dormir, Feather eriou as orelhas ao ouvir os passos de Brendan nas escadas. Lynne conteve o impulso de correr at a porta; teria tempo de sobra na segunda pela manh para lhe dar o recado do amigo.
Lynne ouviu um segundo conjunto de passadas, que tambm parou diante da porta de Brendan. Vozes graves e msculas murmuraram por alguns momentos, e logo um dos conjuntos de passadas moveu-se em direo  escadaria no fundo do corredor.
E, ento, em vez de se dirigirem ao seu prprio apartamento, as passadas de Brendan seguiram para a porta de Lynne. Feather ficou enlouquecida, ganindo e pulando, embora no tenha latido, como fizera antes.
Suspirando, Lynne caminhou at a porta. Era melhor acabar logo com isso. Parte dela estava ansiosa por v-lo. Ansiosa demais. A outra parte lutava contra sentimentos de mgoa e insignificncia.
- Ol - disse ela. - Bem-vindo ao lar.
- Obrigado. Senti saudade de voc. - Ele estendeu o brao at ela, mas Lynne recuou um passo e ele s pegou sua mo. Depois de um momento de silncio constrangedor, ele perguntou: - Voc teve um bom fim de semana?
Ele soltou sua mo e se abaixou para acariciar as orelhas de Feather.
- Sim, muito bom. E voc?
- Agradvel. Fui visitar minha famlia. Mas  um alvio voltar para casa.
E acho que Cedar cansou de ser perseguido pelo gato de minha me.
Ela no conseguiu conter uma risadinha ao pensar naquele cachorro preto fugindo de um gato. Ento lembrou que estava tentando manter-se reservada e calma, e se recomps.
- Como Feather se comportou na sua viagem? Ela fez um breve relatrio e ento respirou fundo.
- Um amigo seu passou aqui.
- Quem? - Ele no pareceu mais do que levemente interessado.
- John Brinkmen.
- Oh, Brink. No sei se eu poderia chamar Brink exatamente de amigo. - Brendan sorriu, e ela sentiu que ele estava determinado a manter a conversa tranqila e agradvel. - Embora a vida perca um pouco de sua emoo sem ele por perto.
- Deixei Feather sair para v-lo. Ela ficou maluca quando ouviu a voz dele.
- Aposto que ficou. Quando peguei meu primeiro cachorro, alguns usurios de ces-guias mais experientes me alertaram que quase todo co tem alguma pessoa a quem ele reage, uma pessoa que faz com que ele perda todo o bom senso e o treinamento e passe a agir como um total idiota. Brink  o mau exemplo de Feather.
- Isso me pareceu muito bvio.
- Depois de muito tempo eu convenci a ambos que ela precisava se comportar e agir como um guia quando estava no escritrio. Mas em casa... - Ele balanou a cabea, desanimado.
- Ele mencionou alguma coisa sobre uma Kendra, tambm - disse Lynne, esforando-se para manter um tom de voz neutro. - Estava preocupado com voc.
Brendan ficou subitamente imvel.
- O que foi exatamente que Brink disse?
- Ele soube que voc descobriu que ela est grvida e ficou preocupado com a forma como voc iria reagir. Talvez seja melhor telefonar para ele.
Brendan exalou.
- Ou talvez eu deva simplesmente ir at a casa dele e estrangul-lo.
- Hein? - Ela perdeu subitamente a aparncia calma que estivera tentando manter.
Ele levantou uma das mos e esfregou a nuca.
- Devo uma explicao a voc.
- Brendan, voc no precisa me explicar nada. No  como se ns fssemos...
- Lynne, no termine esta frase - sentenciou Brendan.
Como no sabia o que dizer em resposta a isso, ela no disse nada.
- D-me cinco minutos para descer com o cachorro e levar todas as minhas coisas para dentro. Papai e eu deixamos minhas malas no corredor.
- Muito bem. - Normalmente ela teria se oferecido para ajudar, mas sentia que ele precisava desse tempo a ss.
- Vou botar a cabea para fora da porta e chamar por voc - avisou.
- Est bem. - Havia momentos em que no valia a pena discutir. Por algum motivo Brendan reagira negativamente a algo que ela dissera, e Lynne tinha certeza absoluta de que dentro de minutos descobriria o qu.
Exatos nove minutos depois o grito de Brendan soou atravs do corredor.
Quando entrou no apartamento, Lynne viu que havia apenas uma luz acesa, e que a sala estava na penumbra.
- Sente-se - convidou. - Servi um pouco de vinho para ns. - Indicou duas taas na mesinha de caf em frente ao sof.   
Ela sentou em silncio no lugar que ele indicou e se moveu para olhar Brendan enquanto ele sentava ao seu lado.
Contudo, depois de sentar, ele no falou imediatamente.
Em vez disso, ele segurou a mo de Lynne e se ps a esfregar o polegar nas costas de seus dedos, que eram muito menores.
Finalmente ele disse:
- Eu lhe devo uma explicao. Simplesmente nunca me ocorreu que isso fosse importante. - Com a mo livre, pegou sua taa e bebericou o vinho. - Eu mencionei antes que tive uma namorada firme nos meus tempos de estudante. Seu nome era Kendra.
O corao de Lynne afundou. Ento ele a conhecia havia muito, muito tempo.
- Noivamos no Natal do nosso ltimo ano na faculdade. Em fevereiro, sofri o acidente. - No precisou entrar em detalhes; ela sabia o que ele queria dizer. - E como lhe disse, alguns meses depois eu mesmo cancelei o casamento.
Para encoraj-lo a prosseguir, ela exprimiu um "Hum-hum?" no comprometedor.
- Kendra casou-se alguns anos depois. Ela mora em Chambersburg. Um dia desses esbarrei com ela no tribunal de Franklin County. - Deu com os ombros. - Com toda sinceridade, jamais teria sabido que Kendra estava l se ela no tivesse falado comigo. Conversar com Kendra foi... agradvel. Est grvida e seu beb nascer em breve.
Lynne ficou to aliviada que, mesmo se quisesse, no teria conseguido dizer nada. O filho no era dele! No que ela tivesse realmente pensado que fosse... ela simplesmente no soubera o que pensar.
- Bem, parece que o enxerido do meu amigo e scio descobriu isso, e achou que a notcia ia me levar ao suicdio. Foi por causa disso que ele veio at aqui.
Lynne finalmente conseguiu dizer alguma coisa:
- Ele apenas estava preocupado. Foi gentil da parte dele.
- Hum! - Em uma nica slaba curta, Brendan deixou claro o que pensava sobre a preocupao de Brink.
Ento ele a puxou para mais perto e passou um brao sobre seus ombros.
- Por favor, desculpe-me por no ter mantido contato com voc nos ltimos dias. Fui passar o Dia de Ao de Graas com minha famlia. Meu plano era voltar para casa sexta-feira, mas minha me me convenceu a passar o fim de semana inteiro com ela. Quis ligar para voc, mas descobri que s tenho seu nmero no trabalho.
- Est tudo bem. Voc no me deve...
- Mas que droga, Lynne! - Sua voz foi to explosiva que ela tomou um susto. - Por que voc sempre tenta minimizar o que est havendo entre ns?
- Eu no tento minimizar nada - protestou. - Mas eu no tenho nenhum direito sobre...
-  Talvez eu queira que voc tenha - disse ele num tom baixo e feroz que a pegou completamente de surpresa.
Brendan puxou-a e pressionou sua boca contra a dela. A intensidade daquele beijo deixou Lynne atordoada e sem ao. Brendan buscou audaciosamente a lngua de Lynne, dominando e devastando suas defesas. Finalmente Lynne plantou as palmas das mos nos ombros dele - para empurr-lo? -, mas Brendan segurou um dos braos de Lynne e o conduziu at seus prprios ombros, para repous-lo em sua nuca.
Ao mesmo tempo, deitou-a no sof enquanto introduzia uma das mos por baixo do suter fino que ela estava usando. No houve nenhuma hesitao nos movimentos de Brendan quando ele empurrou para o lado o suti de renda e colheu o seio inteiro na palma da mo.
E ele continuou calado enquanto esfregava o mamilo sensvel de Lynne, atiando as chamas de desejo que j ardiam em seu ntimo.
Lynne no. conseguia falar, mover-se ou pensar; tudo que podia fazer era ficar deitada ali e sentir. Brendan deslizou um joelho entre suas pernas, empurrando para o lado o tecido da saia, permitindo que ela sentisse uma lufada de ar frio na parte inferior do corpo. Ele a estava beijando novamente, drenando sua fora de vontade e submetendo-a a uma onda arrebatadora de desejo.
- Brendan - arfava como se estivesse correndo uma maratona.
- Lynne. Eu quero voc - declarou, sua voz grave e rouca. - Tenho ficado louco imaginando se voc pensa em mim da mesma forma que eu penso em voc.
As palavras derreteram o fiapo de resistncia que Lynne tinha a oferecer.
- Sim, eu penso sim.
Mas ele j estava com a boca colada na sua, beijando-a quase freneticamente. Ele deslizou os lbios ao longo da linha de seu queixo. Lynne sentiu a respirao quente em seu lbulo sensvel um momento antes de ele ser sugado pela boca de Brendan, que o lambeu delicadamente. Uma inesperada rajada de desejo quente correu por ela, e Lynne respirou fundo enquanto arqueava o corpo contra o dele.
- Espere! - arfou Lynne, no inteiramente certa do que queria dizer. Mas ele simplesmente balanou a cabea enquanto sua boca viajava pelo pescoo de Lynne em busca de seu seio, comeando a sug-lo mesmo por cima da blusa e do suti. - No posso.
Uma parte distante de Lynne sentiu-o abaixar uma das mos. A mo grande e quente moveu-se determinada entre eles. Ento, de repente, de forma radical, Brendan puxou para fora do caminho a calcinha fio-dental e empurrou seu membro, rijo como ao, contra a entrada mida e macia do corpo de Lynne.
Por instinto, Lynne tentou fechar as pernas, mas ele a dominou com facilidade, e num instante sua coxa fora levantada at a altura da cintura de Brendan, que continuou empurrando at que o corpo de Lynne cedesse. Ele deslizou para dentro dela, pressionando regularmente para a frente  medida que era aceito pelo seu corpo. Ela sentiu uma pontada de desconforto e, ento, a excitao lubrificou-a ainda mais, facilitando a trajetria. Enquanto Brendan a invadia, Lynne gemeu, convicta de que no conseguiria receber nem mais um milmetro.
Brendan recuou e arremeteu novamente. Com o corpo subjugado pela agresso rija de Brendan, Lynne afundou as unhas em suas costas. A evidncia material de excitao masculina aumentava ainda mais a necessidade que fervilhava em Lynne. Levantando as pernas em torno da cintura de Brendan, Lynne usou os calcanhares para apert-lo mais contra ela. A mudana na posio a exps aos golpes amorosos de uma forma ainda mais ntima, que fez ondas de prazer quente percorrerem seu corpo em cadncia com os movimentos dele.
Brendan golpeou o ntimo de Lynne cada vez mais depressa. Msculos pulsavam sob as mos de Lynne enquanto ele corria as mos por suas costas.
Ela no conseguia pensar, no conseguia respirar, no conseguia fazer nada  medida que o prazer crescia. Ento gritou, o som abafado pelo ombro de Brendan, enquanto ele deslizava a mo entre eles e pressionava um dedo firmemente contra ela. As costas de Lynne arquearam -e ela estremeceu por baixo dele enquanto sentia rajadas de prazer trespassarem-na. Enquanto seu corpo espremia e apertava o membro intumescido, Lynne ouvia vagamente Brendan deixar escapar roucos gemidos de prazer. Subitamente, os movimentos cessaram; Brendan estava imobilizado por cima dela, braos tremendo enquanto vertia jatos de calor lquido. Por fim, desabou satisfeito, virando o rosto para o pescoo de Lynne para ali pressionar seus lbios.
As costas de Brendan ergueram-se sob as mos de Lynne enquanto ele respirava com dificuldade. Brendan era pesado, mas quando se moveu Lynne deixou escapar um som incoerente de negao e o puxou de volta.
Ele soltou uma risada baixa enquanto cheirava o pescoo de Lynne, para em seguida caar seus lbios.
-  Uma pessoa pode morrer de prazer? - perguntou.
Ela sorriu.
- At agora, eu achava que no.
Ento, apesar do protesto de Lynne, ele se moveu, deslizando para fora dela e rolando para um dos lados. Antes que ela tivesse tempo de se sentir descartada, ele se virou e a puxou para seus braos.
Ela sentia seu prprio corpo pesado e letrgico, e seu ltimo pensamento antes de fechar os olhos foi de que seria feliz se passasse o resto da vida naquela posio.
Um pouco depois - ela perdeu completamente a noo da passagem do tempo -, Brendan estremeceu, seu peito musculoso movendo-se sob sua cabea. Um dedo deslizou pelo queixo de Lynne e levantou seu rosto. Ela se entregou completamente quando ele tornou a beij-la. Finalmente Brendan recuou a cabea por alguns centmetros e perguntou, sussurrando contra sua boca:
- O que voc esteve pensando nestas ltimas horas?
- Pensei que voc talvez estivesse apaixonado por outra pessoa - admitiu. No momento em que as palavras atingiram o ar, Lynne quis se enfiar num buraco para nunca mais sair. No podia crer que tivesse dito aquilo em voz alta.
Brendan ficara absolutamente imvel. No podia culp-lo. Sexo, especialmente para homens, no tinha necessariamente qualquer relao com amor.
Ento, ele se moveu para mais uma vez imobiliz-la sob seu corpo.
- E isso incomodou voc? Ela hesitou, antes de sussurrar:
- Sim. - Ela j dissera o que no devia; por que tentar consertar isso agora?
- Que bom - disse, acariciando suavemente os ossos do rosto de Lynne. - Porque estou me apaixonando por voc e odiaria pensai- que sou o nico afetado.
- Brendan... - A voz morreu na garganta, e ela no conseguiu falar mais nada. Ela estava muito feliz. Era assustador estar feliz, saber que outra pessoa poderia segurar seu mundo na ponta de um dedo.
Ele a beijou novamente, e ela sentiu contra sua barriga o indcio de que o corpo dele estava retornando  vida. Lynne baixou a mo entre eles. Brendan gemeu de prazer quando sentiu os dedos de Lynne envolverem-no, tracejando a carne dura desde a ponta at a densa circunferncia na base.
Ela esqueceu de qualquer inteno de falar quando ele se deitou de costas e estendeu os braos, convidando-a a montar sobre sua virilha. Um involuntrio tremor de excitao correu por Lynne ao senti-lo solidamente aninhado em sua pele macia e mida. Brendan deixou escapar uma risadinha de relaxado prazer.
- Podemos conversar depois. Neste momento penso em coisas melhores para fazer. 
Na manh seguinte, Brendan mal entrara no escritrio quando Brink se aproximou dele.
-  Ento, o que est acontecendo entre voc e a loura linda do apartamento em frente?
- Quem disse que est acontecendo alguma coisa? -  Ele esperou um pouco, mas no resistiu a perguntar: - Linda, ? Como ela se parece?
- Gostosa - respondeu Brink. - Muito, muito gostosa. Alta, pernas compridas e bem torneadas...
- Seu rosto - asseverou Brendan. - Apenas seu rosto.
- Ela  bonita - disse Brink com simplicidade. - No estava usando maquiagem quando a vi, e no acho que teria me chamado a ateno no meio de uma multido, mas depois de dar uma boa olhada, voc no esquece aquele rosto. Malares lindos, lbios carnudos, covinhas. Uma covinha tremendamente sexy no queixo. Dentes bonitos. Olhos azuis, grandes e convidativos...                                              
- Certo. Voc pode parar por a.
Brink riu.
- Opa!  o gene do cime que est falando?  
- No preciso. Ela  minha.
- Est brincando? - Brink pareceu estarrecido.
- Nem um pouco. Fica longe, companheiro.
- Droga. - Brink pareceu ofendido. - No h justia no mundo. Voc no consegue enxergar e conquista a mulher mais bonita da cidade. Poderia ter arrumado uma garota engraadinha, charmosa e bem-humorada, com uma personalidade maravilhosa. No teria feito diferena se ela fosse uma trombada. Mas no, voc precisava pegar uma mulher linda!
Brendan fez que sim com a cabea enquanto ria alto.
Desde o dia de seu acidente, Brink tinha sido irreverente e divertido, recusando-se a danar em torno do assunto da cegueira de Brendan.
- Uma trombada, ? Obrigado por sua considerao.
- Sem problemas. Para que servem os amigos? Ento ela vir com voc na festa de Natal?
- Pensei nisso. E voc, j arrumou uma acompanhante?
- A Amanda da firma de contabilidade no outro lado da rua.
- Aquela com quem voc tem almoado? Aquela que voc disse que parece com a Meg Ryan, s que calada e misteriosa?
- A prpria.
- Mandou ver!
- Sim. As garotas mais gostosas da festa estaro conosco. - Brendan ouviu o som dos passos de seu amigo dirigindo-se at a porta. Ento Brink virou-se novamente. - E, ento, voc no chegou a me responder... o que est havendo entre vocs?
Ele no hesitou.
- Algo srio.
- Srio no nvel de alianas e votos? Brendan fez que sim.
- Mas a gente no se conhece h muito tempo. No quero apress-la.
- Eu no sei, meu chapa - disse Brink antes de caminhar at seu escritrio. - Aquela garota  inacreditavelmente linda. Acho melhor no esperar muito tempo. Naquela tarde , o celular de Lynne tocou quando ela voltava para casa de uma reunio na igreja que ela comeara a freqentar. Ela fora com Feather, porque o pastor dissera que no haveria problema de comparecer com a cadela. Ficou feliz ao ler na telinha do celular: Brendan. Antes de se despedirem naquela manh, Brendan insistira que trocassem nmeros fixos e de celular.
- Al?
- Oi, querida. Como foi a reunio?
- Acaba de terminar. Acho que vou entrar para essa igreja. Gostei muito.
- Acho que terei de fazer isso tambm.
Ela quase deixou cair o telefone. O que ele quisera dizer? No tire concluses apressadas, Lynne.
- Voc ser bem-vindo a me acompanhar, qualquer dia desses.
- Ento  um compromisso para domingo. - Ele mudou de assunto. - Tem planos para o jantar?
- No. Ia apenas fazer um bolo de carne. - Ela ainda estava pensando no que ele dissera sobre "um compromisso para domingo". - Gostaria de jantar comigo?
- Seria timo. No posso chegar em casa antes das seis. Estarei l logo depois que tiver dado a comida de Cedar.
- Muito bem. At l.
- Estou com saudades de voc. No pensei em outra coisa o dia inteiro.
Ela parou de supeto.
- Brendan, eu sinto o mesmo. - Ela abaixou a voz. - Corra para casa para eu poder lhe mostrar o quanto senti sua falta. - Ela realmente acabara de dizer isso?
Houve um momento de silncio do outro lado da linha. Ento, ele falou novamente, a voz grave e rouca.
- Vou exigir que cumpra sua palavra, querida.
Em casa, Lynne assou brownies. Enquanto esfriavam, colocou lenis limpos na cama. S por precauo. Em seguida, preparou o bolo de carne e o colocou no forno, junto com duas batatas assadas. Assim que eles estivessem prontos para jantar, ela cozinharia alguns aspargos no vapor.
Olhando o relgio, viu que havia tempo para um banho rpido. Bom. Prendeu o cabelo e entrou no chuveiro. Quando terminou, viu que eram cinco e meia. Estava com sobra de tempo.
Vestiu o roupo, comeou a soltar os cabelos... e tomou um susto quando a campainha tocou. Droga. Quem poderia ser? Ainda no era hora de Brendan chegar em casa.
Mas quando chegou  porta, Feather j estava ali, cauda balanando em um ritmo frentico. Lynne abriu a porta.
- Chegou cedo! - Ela olhou em torno. - Onde est Cedar?
- Fui mais rpido do que esperava - explicou Brendan. - Cedar j comeu. - Ele fechou a porta e puxou Lynne. - Venha c.
Enquanto ele a abraava, apertando-a contra seu corpo, ela estremeceu com desejo renovado. Como ele conseguia fazer isso? Num minuto estava tranqila, no seguinte, sentia-se a ponto de ser reduzida a uma nuvem de vapor.
- Beije-me. - Ela abraou o pescoo de Brendan e levantou o rosto at o dele.
Porm, depois de alguns instantes ficou claro que Feather estava determinada a no ser excluda. Com uma risada, Brendan soltou Lynne e se ajoelhou para abraar seu co-guia aposentado. Finalmente, Brendan se levantou e foi prender a cadela na cozinha. Virando-se, pegou a mo de Lynne. Caminharam de volta at a sala de estar e ele imediatamente abraou Lynne de novo. Mas ele logo recuou.
- O que voc est usando? - Suas mos j estavam no cinto do roupo de Lynne. Abrindo-o, introduziu as mos para acariciar suas curvas nuas.
- Brendan! Estamos na sala de estar!
- E da? As cortinas esto fechadas?
- Esto, mas...
- "Mas" nada. - Ele recomeou a beij-la enquanto corria as mos por seu corpo, acariciando-a e provocando-a, roando repetidamente seus mamilos com os polegares at ficarem duros, disparando rajadas de prazer para a parte baixa de seu corpo cada vez que eram tocados. Ela tentou se desvencilhar de Brendan, mas ele a levou contra a parede e continuou a acarici-la, a mo descendo pela barriga plana at o arbusto em forma de V.
Ele levantou um dos joelhos contra ela e pressionou at Lynne afastar as coxas para permitir que aquela mo grande e quente sondasse profundamente entre suas pernas. A mo deslizou pela costura macia e a abriu gentilmente, para espalhar sua umidade.
Lynne encostou a cabea na parede e deixou o corpo afundar, rendendo-se, enquanto ele curvava a cabea para sug-la. Lynne gemeu novamente ao sentir o movimento de um dedo comprido dentro dela, entrando, saindo, esfregando o boto latejante que ele descobrira no meio de suas coxas.
-  Brendan - ela arfou. - No posso... No posso...
- Voc pode - disse ele com determinao, introduzindo um segundo dedo. Ele girou a almofada de seu polegar mais uma vez contra ela, e Lynne cerrou os dentes para conter o grito que queria escapar.
E, ento, ele a tocou novamente, e o mundo explodiu enquanto ele a levava  loucura com a mo, prolongando suas reaes at ela estremecer de prazer. Gentilmente, ele retirou a mo, e esse simples ato a fez soltar mais um gemido de prazer.
- Uau - murmurou Lynne. - Se  isso que voc faz sempre que entra em casa, vou precisar tomar mais vitaminas.
Ele riu e a abraou fortemente.
- Vamos fazer disso um hbito.
Enquanto descansava encostada nele, Lynne se deu conta de que, embora houvesse relaxado, ele estava muito longe disso. E quando ela desceu a mo para segurar a protuberncia na frente de suas calas, ele disse:
- Talvez seja melhor acharmos uma cama.
- Ou no. - Antes que ele pudesse se mover, ela se ajoelhou diante dele.
- O que est fazendo? - A pergunta foi retrica; sua voz soou rouca de excitao e antecipao.
Lentamente, desafivelou o cinto de Brendan e correu o zper das calas, revelando cueca azul com listras brancas. Levou uma das mos  abertura e envolveu com os dedos a coluna de carne rija para em seguida massage-la delicadamente.
- Lynne, voc vai me matar - disse uma voz gutural acima de sua cabea.
Ela sorriu enquanto abaixava a cueca dele.
- Espero que no.
Estava completamente excitado. Ao v-lo livre, curvou-se para a frente e colheu sua ponta com os lbios. Brendan arqueou as costas; por um momento, cerrou as mos em punhos. Curvando-se, obrigou Lynne a se levantar. Num nico movimento fluido, levantou-a, abraou-a contra a porta e a possuiu.
Houve um momento em que Lynne sentiu-se suspensa, seu mundo equilibrado num afiado gume de desejo. Brendan segurou os quadris de Lynne e a puxou com firmeza para baixo, impulsionando-se para a frente num nico golpe longo que o fez alojar-se profundamente na bainha receptiva. Apoiou os braos na parede, de cada lado da cabea de Lynne, e comeou a mover-se com constncia, contraindo as ndegas a cada golpe.
Ela passou as pernas em torno da cintura de Brendan. O prazer de Lynne era to intenso que ela mal conseguia formar um pensamento consciente. Era um prazer ampliado pela conscincia da excitao plena de Brendan, e quando ele arremeteu contra ela, no momento final de sua satisfao, Lynne tambm chegou ao clmax. Ainda comprimidos contra a parede, comearam a arfar, exauridos.
Brendan comeou a rir.
- Meus joelhos parecem feitos de macarro cozido. Consegue caminhar?
- No tenho certeza. - Ela no estava brincando. Com gentileza, levantou-a e abaixou-a. Segurou os quadris de Lynne at sentir que ela estava de p com firmeza.
- Precisamos ficar na horizontal antes de cairmos - disse Lynne, rindo.
- Bom plano. - Despiu calas e sapatos, camisa e meias.
E, ento, gloriosamente nu, segurou-a no colo.
- O que est fazendo? - perguntou Lynne num tom levemente apreensivo.
- Me d direes.
- Mas eu sou pesada demais. Ponha-me no cho.
- Direes - repetiu. - Ou no vamos alcanar a cama.
- Dois passos para a frente e vire  direita!






CAPTULO OITO


As duas semanas seguintes foram as mais felizes da vida de Lynne. Ela e Brendan jantavam, cuidavam dos ces e, depois, passavam a noite juntos, em geral no apartamento dela. No fim de semana que se seguiu  primeira noite em que eles haviam feito amor, Brendan saiu para correr com ela.
Nenhum deles tinha certeza sobre como aquilo ia funcionar. Brendan ainda corria numa esteira, mas parar de praticar cooper ao perder a viso.
Mas disse a Lynne que uma usuria de co-guia, a quem conhecera num grupo de discusso na Internet, corria a Maratona de Nova York com o marido. Eles usavam a tcnica do guia com viso, embora fosse diferente da tpica posio de caminhada mo-direita-no-cotovelo-esquerdo.
Assim, depois de consultarem a mulher, saram de manhzinha para as estradas longas e retas que cruzavam o campo de batalha. Devido ao imenso volume de turistas no vero, as estradas eram mantidas em boas condies. Mas em meados de dezembro o trfego era quase nulo.
Caminharam at o campo de batalha para fazer aquecimento e alongamento. Ele estranhou no estar com Cedar, mas a escola de treinamento de ces-guias que o treinara dera-lhe instrues explcitas quanto a no correr com o co. Era fcil superaquecer um co que j estava usando um guia, e muito perigoso. No queria desobedecer as instrues da escola em uma questo to importante. Isso, explicou a ela, era um pouco diferente do que deixar o cachorro deitar na poltrona.
Brendan levara uma faixa de pano largo, com a qual amarraram-se um ao outro, o pulso esquerdo de Lynne no direito de Brendan.
Como cada um deles teria de manter um padro respiratrio estvel durante a corrida, estabeleceram um sistema de comunicao no-verbal. Brendan corria um pouco  frente para poder responder aos leves puxes em seu pulso. O trabalho de Lynne era transmitir indicaes a ele, bem como se manter atenta para buracos na estrada e veculos que se aproximassem.
- Isso foi incrvel! - exclamou Brendan, jubiloso, ao reduzirem o ritmo para uma caminhada e recuperar flego suficiente para conversar. Com o brao direito, que estava livre, ele a segurou e a puxou para si, procurando por seus lbios.
- Muito obrigado. Achava que jamais correria ao ar livre de novo.
- Podemos fazer disso um hbito regular - ela comentou quando ele a soltou. - Embora eu ache que deva ser bem difcil encontrar um horrio seguro para correr durante a temporada de turismo.
-  Provavelmente. Essas estradas ficam incrivelmente congestionadas.
Ele fez que sim com a cabea enquanto caminhavam rapidamente na direo do prdio deles.
- Voc realmente no viveu em Gettysburg at estar aqui junto com os turistas. Parece uma praga de gafanhotos.
- Vai ser interessante. Nunca morei num lugar que fosse atrao turstica. - Mal podia esperar a chegada do vero. Sentir-se incomodada por visitantes significaria que estava aqui h tempo suficiente para fincar razes, e, ento, teria a sensao de realmente pertencer  comunidade. 
Naquela noite, acordou no meio da noite e percebeu que ele tambm estava acordado, embora no tivesse falado nada. Ainda era emocionante adormecer em seus braos e acordar da mesma forma. Supunha que um dia essa emoo iria acabar, embora no conseguisse nem imaginar isso.
Ele se deitou com ela aninhada na curva de seu brao, uma das pernas entrelaada com a dele.
Com a mo livre, ele enrascava uma madeixa dos cabelos de Lynne.
- Brendan?
- Oi.
- O que estava fazendo?
Ele abandonou seu cabelo e se virou para segurar seu rosto em concha e beijar seus lbios.
- Estava apenas deitado aqui, pensando na sorte que tive em conhecer voc.
O corao de Lynne expandiu-se um pouco mais ao ouvir estas ternas palavras.
- A sensao  mtua.
Houve um momento de silncio confortvel. Ento, ele disse:
- Nunca terminamos uma conversa que comeamos h algumas semanas.
- Que conversa? - Ela estava sonolenta, saciada e absolutamente confortvel.
Por baixo do rosto de Lynne, o peito de Brendan subiu e desceu enquanto ele ria.
- Correndo o risco de cometer uma gafe terrvel ao mencionar o nome de outra mulher enquanto estamos na cama, estvamos falando sobre Kendra.
- Oh. - Ela pensou no assunto. - Realmente  um risco que voc est correndo, mas estou ouvindo.
- Eu realmente gostaria de contar a respeito dela. - Sua voz ficara sria.
Levantou a mo e acariciou o rosto dele.
-  claro.
- Ela foi fantstica depois do acidente. Ela me apoiou muito, e se mostrou muito determinada a no me deixar afundar num poo de autopiedade. Na verdade, foi ela quem sugeriu que eu arrumasse um co-guia.
- Certo. Talvez eu goste dela.
Ele sorriu e acariciou os cabelos de Lynne.
- Ainda gostava dela, mas nessa poca estava completamente centrado em mim mesmo. S conseguia pensar em como minha vida havia mudado.
-  compreensvel.
- Talvez. Em todo caso, depois de seis meses, eu disse a Kendra que no poderia me casar com ela. Meti na cabea a idia idiota de que agora tinha tantos desafios fsicos a vencer que no poderia ser o tipo de marido que ela merecia.
- Isso foi incrivelmente estpido. Ele estremeceu.
- Eu sei. Realmente a magoei. A nica coisa que Kendra me fez prometer foi que eu buscaria apoio psicolgico depois que rompssemos. Foi o que fiz. O psiclogo com quem me consultei tambm havia perdido a viso quando tinha cerca de 20 anos. Ele me ajudou muito a passar da fase do "Por que eu?" e comear a viver novamente. Entrei numa lista de espera por um cachorro e, ento, cerca de seis meses depois, uniram-me a Feather.
- Mas por que voc no voltou com Kendra? - Ela se deitou, usando o brao dele como travesseiro. - No que eu esteja me queixando.
Ele sorriu.
- Eu me sentia culpado por ter terminado daquele jeito. E, ento, depois de muito tempo, pensei que talvez conseguisse consertar nosso relacionamento. - Ele cocou a cabea enquanto falava. - Vendo agora, acho que o que eu desejava mais era a familiaridade do relacionamento conhecido, mas decidi que a queria de volta.
Lynne no pde conter um estremecimento. Brendan hesitou, mas ento ele simplesmente prosseguiu com seu relato.
- Ela ainda estava morando no mesmo prdio. Assim, um dia eu simplesmente apareci por l. Toquei a campainha e um cara que eu no reconheci atendeu a  porta. Assim que ele me viu, gritou por Kendra. Eles haviam acabado de se casar.
- Puxa. Hora errada.
- . Eu me senti um idiota. Durante muito tempo, pensei que ainda a amava. Eu estava furioso comigo mesmo por t-la perdido, e furioso com ela por ter desistido de mim, por mais irracional que isso fosse, considerando que fui eu quem a chutou.
- Sentimentos nem sempre so racionais.
- Quando a vi, outro dia, realmente me fez bem perceber que no a amava mais. Eu no fiquei magoado com ela, nem a quis. - Ele recolheu o brao, trazendo-a para mais perto para beijar sua testa. - Eu havia prosseguido com minha vida. Tinha conhecido voc.
Uma bolha de felicidade se expandiu dentro dela, ameaando faz-la flutuar at o teto.
- Eu nunca me senti assim a respeito de ningum - disse ele. - Eu achava que amava Kendra, mas nunca senti por ela o que sinto por voc. Lynne, eu amo voc.
Contudo, a felicidade tornou-se apreenso quando ela lembrou que tambm tinha um segredo. Precisava contar quem ela havia sido. Ela no achava que isso tinha alguma importncia, mas... no era o tipo de segredo que ela deveria guardar do homem com quem queria passar o resto da vida. E ela queria.
- Querida? - Ele a fez deitar-se e se colocou sobre ela, um vulto imenso pairando sobre ela na escurido, com ombros que bloqueavam a pouca luz do cmodo.
- No que est pensando?
- Faa amor comigo - disse ela. Ela precisava pensar em como explicar por que guardara aquele segredo, antes de revelar tudo. Deliberadamente, levantou o joelho, que estava aninhado entre as pernas dele, e esfregou-o suavemente para a frente e para trs, sentindo-o estremecer quando sua pele sensvel foi estimulada, e quando ele se moveu para se deitar entre as pernas dela, ela imediatamente comeou a balanar-se contra ele. Ela sentiu o membro quente e latejante crescer. Quando Brendan curvou-se para trs, e a ponta lisa sondou sua delicada abertura, Lynne sentiu uma rajada de excitao percorrer seu corpo. Plantou os ps na cama e empurrou o corpo para cima. Ele arfou alto quando a ao de Lynne levou-o profundamente para dentro dela.
Brendan ps as mos enormes em concha nas ndegas de Lynne, inclinando-a para receber seus golpes constantes. A medida que sentia a nuvem de desejo adensar-se, preparando-se para irromper sobre sua cabeca, Lynne agarrou-se a ele, cruzando os tornozelos por trs de suas costas para segur-lo firme e profundamente. Eu tambm amo voc, pensou, mas no poderia dizer isso em voz alta at ter sido completamente honesta com ele. Eu tambm amo voc.
Na noite de sexta-feira armaram uma rvore de Natal no apartamento de Lynne. Brendan no decorava o  apartamento.                                                           
- No  que eu no goste do Natal - explicou, mas no posso ver a decorao, e  um saco retirar  um monte de coisas dos armrios para depois guardar  tudo de novo. Mas vou adorar ajudar voc.
-Tudo bem. Mas pelo menos coloque uma guirlanda na porta. E me ajude a decorar meu apartamento.
- Meu trabalho ser comer biscoitos enquanto troco CDs natalinos.
- Que grande voluntrio!
Ele riu, feliz por ela querer dividir com ele os preparativos para o Natal.
- Acordo fechado...
Foram de carro at uma loja comprar uma rvore. Caminhando por entre as fileiras de rvores, Brendan apertou a mo enluvada de Lynne. O tempo estava muito mais frio do que na semana anterior, quando  eles haviam corrido, e a meteorologia previra neve para o fim de semana.                                             
- Isto  fantstico - disse ele, respirando profundamente o ar gelado e com aroma de pinho. - Traz de volta boas lembranas de minha infncia. Minha famlia costumava sair para cortarmos juntos nossa rvore.
- Isso devia ser agradvel. Ns sempre comprvamos uma rvore artificial. Mame dizia que era muito difcil para uma mulher solteira e duas menininhas carregarem uma rvore de verdade.
- Ento agora voc mesma decora uma rvore de verdade.
- E a minha irm tambm. Fao isso porque  divertido. Ela tambm faz porque est determinada a dar um Natal de verdade aos filhos.
-  Voc no teve um Natal de verdade quando criana?
Ela balanou a cabea.
- Mame nunca dedicou muito tempo a fazer nada alm do necessrio para mim e CeCe. No me entenda mal... Ela no  m pessoa, mas estava absorta demais em seu sofrimento e na raiva por meu pai para se concentrar em ns.
- Voc se recorda dos dois juntos?
- Na verdade, no. Tenho umas lembranas vagas dele brincando conosco, mas nenhuma recordao especfica de minha famlia unida. Ele voltou por cerca de um ano depois de se divorciar da segunda esposa, mas nos deixou de novo quando eu tinha 9 anos. Depois ele teve mais trs esposas, durante minha adolescncia e o comeo de minha vida adulta, e agora est para se casar com a nmero 6.
Ele estava um pouco estarrecido com a infncia que ela tivera.
- Ele deve gostar muito de pagar penso.
O comentrio fez Lynne rir. Ela encostou a cabea no ombro dele por um doce momento antes de dizerem  vendedora qual rvore haviam escolhido.
De volta ao apartamento, ele a ajudou a carregar a rvore escadaria acima e coloc-la em sua sala de estar. Contando com a ajuda dele, ela pudera escolher uma rvore maior do que de costume. Brendan gostava da forma como ela sempre considerava que ele era capaz de fazer a maioria das coisas, exceto quando ele dizia que no. Ele no ajudara ningum com essa parte do ritual do Natal desde que perdera a viso, e estava achando profundamente satisfatrio ser mais do que simples espectador. E ficou ainda mais feliz ao conseguir subir as escadas com aquela rvore sem quebrar o pescoo.
Lynne tinha inmeras bolas, ornamentos e delicados enfeites de madeira alemes que, segundo ela, eram principalmente vermelhos, prateados e verdes, belas guirlandas decorativas e uma coleo de ornamentos de cristal irlandeses.
- Papai d um a CeCe e a mim todos os anos, desde que nascemos - disse ela, colocando uma pea fria de vidro na mo dele.
Explorando a pea, ele percebeu que se tratava de um anjo, e que havia alguma coisa gravada num dos lados.
- O que diz aqui?
- O primeiro Natal do beb. Com meu nome e a data de nascimento. Todos eles tm minhas iniciais e o ano.
- Uma bela tradio - declarou. - Todos ns temos meias de Natal tricotadas por minha me. E vrios dos nossos enfeites de rvore foram feitos por ela numa poca ou noutra. Desconfio que no existe nenhum tipo de costura que ela no consiga fazer.
- Acho que eu gostaria de ter coisas como essas.
- Desculpe, mas eu no sei costurar - disse, fazendo-a rir.
Depois que terminaram de montar a rvore, ele a puxou para si, sentindo a excitao que sempre lhe despertavam aquelas curvas longas e esbeltas.
- Obrigado por me pedir para fazer isso. Tenho a impresso de que estamos criando algumas tradies.
Ela beijou o queixo dele.
- Gostei de ouvir esta palavra: tradies.
- Coisas que faremos todos os anos - esclareceu, querendo ter certeza de que ela entendia o quanto era importante em sua vida. Era engraado como, em menos de dois meses, Lynne tornara-se to necessria para ele quanto... respirar.
Ele a sentiu respirar fundo.
-  Minha irm me convidou para passar o Natal com ela, mas ainda no lhe dei certeza.
Ouvindo a pergunta que ela no fizera, ele comentou:
-Acho melhor conversarmos sobre o que faremos com relao ao Natal. Quero conhecer sua famlia...
- E eu quero que voc os conhea. Inclusive, CeCe ameaou no me dar meus presentes se eu no levar voc para a ceia de Natal.
Ele riu.
- Eu quero apresentar voc  minha famlia tambm. Mas por que no fazemos nossos planos logo, pra que eu possa dizer  minha me quando estaremos l?
- Seria muito agradvel passar a vspera de Natal aqui. E ir ao culto em minha prpria igreja pela primeira vez.
-  Seria bom mesmo - concordou. - O culto deve acabar por volta das nove. Gostaria de ir at a casa da sua irm depois disso?
Ela fez que no com a cabea.
- Preferia passar a vspera de Natal aqui mesmo, apenas ns e os cachorros. Podemos acordar de manh bem cedo para irmos at a casa de CeCe.
- E  tarde ir at  casa da minha famlia?
- Parece um plano. - Ele podia ouvir um tom de diverso em sua voz. - Mas se comermos nos dois lugares, depois no vamos caber em nossas roupas.
- Correrei esse risco, se voc correr.
Ele abaixou a cabea para salpicar uma linha de beijinhos pela sensvel coluna do pescoo de Lynne at afundar o nariz na concavidade acima de sua clavcula.
- Acabamos de montar a rvore? Porque tenho um presente que quero dar a voc.
Ela riu, deslizando a mo pela frente do corpo dele para explorar a forma crescente de sua excitao.
- Mal posso esperar. Pode me dar agora? 
A festa de Natal no escritrio de Brendan foi realizada, no terceiro sbado de dezembro, em um clube nos arredores da cidade.
Lynne estava empolgada por Brendan querer que ela o acompanhasse para conhecer seus amigos e colegas de trabalho. Ele j fora  igreja com ela duas vezes, e algumas das pessoas ela j conhecera l. Era agradvel saber que outras pessoas os consideravam um casal.
Ainda assim, estava terrivelmente nervosa por causa da festa. Queria estar bonita para Brendan, embora ele no pudesse apreciar isso visualmente. O fato de que ela seria examinada pelas pessoas que o conheciam era motivo suficiente para faz-la querer estar o mais bonita possvel.
Mas vestir-se, colocar maquiagem e arrumar o cabelo trouxe sua tenso e medo de volta  superfcie. Ela se sentiu da mesma forma que nas primeiras semanas depois de ter desistido de trabalhar como modelo. Ela passara algum tempo com a me at decidir onde iria morar. Cada vez que sara da casa, sentira-se como um ratinho do campo aventurando-se fora de seu esconderijo, expondo-se aos predadores. Sentira-se aterrorizada com a possibilidade de que desconfiassem que ela era algum tipo de celebridade e acabassem reconhecendo seu rosto.
Mas com o passar do tempo Lynne descobriu uma verdade surpreendente: as pessoas esto muito concentradas em suas prprias vidas e preocupaes para dar muita importncia a um novo rosto que acabam de conhecer.
De vez em quando algum olhava para ela e perguntava se j se conheciam, como Brink, o amigo de Brendan. Mas ningum jamais fizera a conexo.
Prometeu a si mesma que contaria tudo a Brendan em breve. Antes do Natal. Ento, eles comeariam o novo ano sem nenhum segredo, sem nada oculto entre eles. Contudo, ela comeava a achar que estava ficando paranica, achando que algum iria reconhec-la.
Era a cor, conclura Lynne meses antes. Sem maquiagem, seus olhos eram comuns e a nfase facial era em sua estrutura ssea e pele de porcelana. Mas com maquiagem... com a maquiagem correta, seus olhos tornavam-se poas negras e ardentes. Quando pintava os lbios nas cores ousadas exigidas por seus cabelos, ento ruivos, sua boca ficava carnuda e seus olhos hipnticos. E usara os cabelos numa exploso de cachos que atraam a ateno de todos.
Sem os cabelos ruivos e cacheados, Lynne era outra pessoa. Apenas levara algum tempo para relaxar e compreender isso.
Mas agora estava diante de um dilema: precisava vestir-se para a festa. Vestir-se significava usar alguma maquiagem, fazer algum esforo. E correr o risco de que seu rosto despertasse a memria de algum.
Mesmo assim, ela no tinha escolha. No podia vestir-se mal, Brendan dissera-lhe que quando o pai de Brink se aposentasse, dali a um ano, ele iria lhe oferecer sociedade na firma. Era uma oportunidade maravilhosa para Brendan, e ela precisava apoi-lo.
Ento, fez todo o possvel para se camuflar.
Como A'Lynne, dispensando qualquer sobrenome, ela quase sempre usara os cabelos ruivos soltos, exibindo os cachos. Para a festa, ela os amarrou, lisos, numa trana elegante.
Ela iria se vestir em tons escuros, que combinariam com seus cabelos louros. Como Brendan usaria smoking, ela teria de vestir algo longo.
Ainda possua alguns vestidos deslumbrantes, mas em vez disso enfrentou uma hora de carro at a casa da irm para pegar emprestado um vestido de veludo verde-pinho falsamente simples. Era sem mangas, com gola suspensa na frente e um decote nas costas at a cintura.
Ela sabia que a textura e o corte apelariam ao tato de Brendan, e decerto desviaria a ateno de seu rosto.
Seu rosto. Havia pouco que pudesse ser feito com seu rosto, exceto aplicao de cor. Escolheu tons terra em vez dos rosas e pssegos que costumara usar em suas fotos, e fez o mximo possvel para parecer atraente e elegante sem deixar seu rosto inesquecvel. Lynne prometeu a si mesma que no deixaria sua parania atorment-la naquela noite.
Brendan cruzou o corredor e bateu na porta de Lynne. Estava bonito e imponente, num smoking escuro, combinando com camisa e gravata pretas. Ele no estava com Cedar. Contou que pensara muito se deveria levar o cachorro, mas finalmente decidira deixar seu guia descansar em casa, afinal eles passariam a maior parte do tempo sentados  mesa de jantar.
Brink e sua acompanhante vieram peg-los. Vrios escritrios de advocacia compareceriam  festa. Cada escritrio realizaria um jantar ou nas salas privativas do clube ou em outros pontos da cidade. Mas depois do jantar haveria um baile no salo elegante do clube, para o qual todos os convidados tinham entradas, independentemente de onde fosse o jantar do escritrio.
Quando a Mercedes de Brink entrou no estacionamento, Brendan disse:
- Voc sabe que seu trabalho ser me dizer quando eu sujar a gola com comida, no sabe?
- Oooh - murmurou Lynne enquanto ele a ajudava a sentar no banco traseiro da Mercedes. -Acho que isso lhe dar algum incentivo para ser gentil comigo.
Ele contornou o carro, dobrou a bengala, ocupou seu lugar ao lado dela e bateu a porta. Enquanto Brink abria a porta para Amanda, Brendan inclinou-se at ela e disse com um sorriso:
- Pretendo ser muito, muito gentil com voc mais tarde, querida.
- Mal posso esperar - ronronou Lynne, correndo um dos dedos pela coxa musculosa de Brendan.  .
- No. No. No. - Ele pegou a mo de Lynne e entrelaou os dedos com os dela. - A no ser que queira nos embaraar, essa  realmente uma pssima idia.  um passeio muito curto at o clube.
O jantar propriamente dito foi agradvel. Ficaram a urna mesa com Brink e Amanda, suas assistentes pessoais, acompanhadas por seus respectivos maridos.
As outras duas mulheres informaram a respeito de quem era quem na sala, com comentrios de Brink, que tagarelava como um apresentador de talk show. Na verdade, Lynne estava grata por aquilo, porque significava que ela no precisava falar muito e que a ateno das pessoas estava em outra parte.
Depois da sobremesa, as mesas foram limpas e a banda comeou a tocar. Era um grupo excelente. Ao ouvir as notas da primeira msica lenta, Brendan levantou-se e segurou a mo de Lynne.
- Dance comigo.
Foi o cu. Ela ainda no o conhecia tempo suficiente para ter se acostumado a estar em seus braos. E ela adorava danar. Brendan era um parceiro forte e, com um mnimo de direcionamento da parte de Lynne, para que eles no esbarrassem em outros casais, os dois moviam-se extremamente bem juntos.
Durante uma pausa da banda, Brendan fez uma pergunta baixa a Brink, e quando seu amigo respondeu, a cabea de Brendan girou para a esquerda. Depois de um breve aceno de cabea, Brendan virou-se para ela e disse:  
- Quero apresent-la ao Sr. Brinkmen.  filho do fundador da firma, tendo assumido os negcios quando o av de Brink se aposentou. Agora ele esta querendo que Brink faa a mesma coisa.
- E, ento, voc ser promovido a scio? Brendan assentiu.
- Brinkmen & Reilly, Advogados Associados. Soa bem, no acha?
Ela riu.
- Acho sim.
- Sr. & sra. Brendan Reilly tambm soa bem - acrescentou Brendan. - Tambm adoro a sonoridade do nome Lynne Reilly.
Ele a estava pedindo em casamento? Pega completamente de surpresa, ela disse a primeira coisa que lhe passou pela cabea.
- Adoro, mas como ningum chamado Reilly me pediu para casar com ele, tudo isso  hipottico.
Brendan soltou uma gargalhada to alta que as pessoas ao redor viraram-se para olhar.
- Voc  bem direta, no ? - Ele deslizou as mos pelos braos de Lynne para colocar as mos em seus ombros. - Lynne, eu no pretendia fazer isso esta noite. Ainda no comprei uma aliana. Mas como parecemos estar circundando aquele que provavelmente ser o assunto mais importante de nossas vidas... quer casar comigo?
A cabea de Lynne estava girando. Ela precisou lembrar a si mesma que precisava respirar.
- Brendan... Voc tem certeza? Espere! Eu no quis dizer isso!
Ele gargalhou novamente.
- Neste momento eu preferiria uma resposta de uma palavra s.
- Sim - disse, apressada. - Sim!
As pessoas ao redor j haviam notado que alguma coisa estava acontecendo. Alheio aos seus olhares, ou talvez sem se importar com eles, Brendan abraou-a e  beijou-a, curvando-a para trs de modo que num segundo ela estava dependurada no pescoo forte de Brendan, dependendo dele para equilibrar-se.
Quando levantou a cabea, Brendan disse:
- Ei, pessoal, esta linda moa acabou de aceitar se casar comigo!
Ao redor deles explodiu uma saraivada de aplausos, assobios e brados.
- A, amigo! - Brink estava l, dando um tapa carinhoso nas costas de Brendan, enquanto uma das assistentes pessoais abraava Lynne.
-  Parabns, querida. Brendan  um dos jovens mais decentes que eu conheo.
Ela abriu a boca para responder, mas seu celular, que estava na bolsa pousada na mesa, comeou a tocar.
- Desculpem,  meu celular! Com licena.
Ela j estava preocupada antes mesmo de abrir a tampa e falar. Ela s possua um celular para ser informada sobre emergncias de famlia, ou para que sua me entrasse em contato com ela em caso de necessidade. Ela, honestamente, no lembrava dele ter tocado desde que ela se mudara para Gettysburg.
- Al?
- Lynnie? - Era CeCe, e Lynne notou imediatamente que ela estava chorando.
- CeCe, o que aconteceu? - Ela sentiu seu corao apertar como se estivesse num avio numa turbulncia.
- Voc est bem?
- Estou - disse CeCe, mas, Lynnie, papai est no hospital. Voc pode vir pra c?
-  claro. - Ela imediatamente pegou um guar-danapo e comeou a rabiscar um endereo. - O que aconteceu?
CeCe comeou a chorar ainda mais forte.
- Ele saiu para correr com a noiva. Parece que ela  atleta. Correram por 16 quilmetros, e ento papai desmaiou. Esto achando que ele teve um ataque cardaco.                          
- Dezesseis quilmetros! - O pai delas tinha excelente forma fsica, mas... - Ele no disse a ela que nunca correu mais do que quatro ou cinco quilmetros em toda a vida?
- Conhece papai - disse CeCe, sua voz ligeiramente mais calma. - Ele preferiria morrer a admitir que no  to forte e em forma quanto um homem jovem. Houve um silncio sbito quando CeCe percebeu o que acabara de dizer, e ento comeou a chorar novamente. - Pode vir imediatamente, Lynne?
- Claro.
Sem hesitar, Lynne concordou e foi contar a Brendan o que acontecera, desapontada e perturbada com a trgica mudana de eventos. Como o melhor momento de sua vida subitamente tornara-se o pior?






CAPTULO NOVE



Na manh de segunda-feira Lynne telefonou para o escritrio de Brendan. Ela mantivera-se em contato constante com ele desde que sara correndo da cidade na noite de sbado para visitar o pai. E, como se revelou, ele realmente tivera um leve ataque cardaco.
Depois de conversar com a irm, Lynne ficara terrivelmente preocupada e frentica por pegar a estrada. Brink levara-os para casa imediatamente. Estava fora de cogitao que Brendan a acompanhasse; ele precisava ficar para cuidar dos ces.
Depois de voltar ao prdio, ela agira com a velocidade de um furaco. Ele tinha certeza absoluta de que ela trocara de roupa, fizera as malas e sara pela porta em menos de cinco minutos.
- Bom dia - disse ele em resposta  saudao de Lynne. - Como seu pai est hoje?
-Passando bem melhor. - Havia um tom seco em sua voz. - Ele est recebendo muita ateno amorosa de Allison, a mais nova atrao. Ele teria adoecido antes, se tivesse imaginado quanta ateno iria receber - acrescentou com uma risada.
Eles conversaram por mais alguns minutos sobre a famlia dela e Brendan assegurou-lhe que os cachorros estavam bem.
- Sinto falta de voc - disse ele. - Dormir sozinho no tem mais a menor graa.
- Tambm sinto falta de voc. Papai receber alta esta tarde. Assim que ele voltar para seu apartamento, onde ter Allison cuidando dele, eu irei para casa.
- Vou aguardar ansiosamente - disse com a mais profunda sinceridade.
Hoje Brendon passara duas horas na joalheria em frente ao escritrio escolhendo uma aliana. Ele levara sua assistente pessoal para ajud-lo a escolher uma aliana que Lynne consideraria um tesouro. Ele compraria algumas flores no caminho para casa, e esta noite eles iriam oficializar seu noivado.
Depois de se despedirem, Brendan direcionou sua ateno para o relatrio no qual estava trabalhando. Estava concentrado nisso h meia hora quando Brink, que passara a manh fora, abriu a porta de repente.
- Finalmente descobri! - exclamou Brink. - Seu cachorro!
- Bom dia para voc tambm. Descobriu o qu?
- Voc sabe. Lynne.
- Do que diabos voc est falando? - Ele finalmente desligou o leitor de tela e deu ateno a Brink.
- Descobriu o qu?
- Voc sabe... Lynne. Quem ela realmente .
- Ah, descobriu, ? - retorquiu num tom seco.
- Quer dividir essa revelao? Tenho certeza de que deve ser engraado.
Houve uma pausa desconfortvel, que o fez desejar que pudesse ver a expresso de seu amigo.
- Voc est brincando, no est? Ela  A'Lynne. Da Sports Illustrated.
- Allan quem?
- No, no Allan. A'Lynne, e no  um cara. Uma  top model... Com um s nome. Ela apareceu na capa da edio de roupas de banho da Sports Illustrated, h alguns anos - assegurou Brink. - Voc est brincando comigo.
- No - disse Brendan cautelosamente. - No estou brincando. Voc realmente acha que essa modelo Lynne se parece com ela?
Brendan ouviu o som de uma revista caindo em sua mesa.
- Guardo todas as edies de roupas de banho da Sports Illustrated.  a mesma mulher. Eu at perguntei a papai, e ele concordou.
Brendan ficou calado por um momento. Finalmente disse:
- Voc pirou. O que faz voc pensar que  ela?
- Quase no a reconheci. Est diferente agora, ela usava os cabelos pintados de ruivo e muito, muito cacheados. Era uma espcie de marca registrada, na capa da revista est bronzeada e,  claro, usando muita maquiagem. Mas estou lhe dizendo, Brendan, definitivamente, o mesmo rosto. Estrutura ssea, formato dos olhos e lbios... E o corpo combina. Alta e esbelta, embora ela parea bem mais magra na revista.
Pense bem. O nome  parecido, apenas Lynne precedido de um A com apstrofo. Est me dizendo que no sabia disso?
- Ela nunca mencionou isso, se for verdade. - Ele fingiu despreocupao, mas seu corao estava acelerado. - Vou falar sobre isso com ela  noite. Imagino que v d umas boas risadas. Mas, obrigado.  bem lisonjeiro, acho, que voc tenha confundido a minha namorada... alis, minha noiva... com uma top model.
Houve silncio no rastro de suas palavras. Finalmente Brink disse:
-  Certo. Devo ter cometido um engano. Ela vai achar uma coincidncia incrvel. - Ele soou aliviado quando sua assistente o chamou de fora da sala para que atendesse a um telefonema. -A gente se fala depois.
Ela no julgara possvel sentir tanta falta de Brendan. Naquela noite, enquanto destrancava a porta e entrava em seu apartamento, Lynne mal podia esperar para largar suas malas e atravessar o corredor para se jogar em seus braos.
Mas ela no teve chance. Ao sair do quarto, a porta da frente abriu e Brendan entrou.
- Oi! - exclamou ela. - Estava indo ver voc. - Ela atravessou a sala e o abraou para beijar os seus...
E ele recuou.
Chocada demais para reagir, ela simplesmente ficou imvel.
Brendan jogou uma revista na mesa ao lado da porta.
- Explique isto.
Ela automaticamente direcionou os olhos para a revista.
E congelou.
Ali estava ela, coberta de areia, pele fortemente bronzeada e usando apenas um exguo biquni azul, na capa da Sports Illustrated.
Era um dos trabalhos mais cobiados do mundo... e ela ainda podia lembrar o quanto se sentira infeliz naquela poca. Separada da famlia, privada dos prazeres simples que muitas de suas amigas desfrutavam, profundamente deprimida pelo fim de seu relacionamento com Jeremy, que ela ento considerara o amor de sua vida.
Lynne nem sabia o que dizer.
- Onde conseguiu isso? Brendan disse, furioso:
- Deve ter sido muito divertido para voc sair com algum que jamais conseguiria descobrir quem voc era.
- No foi divertido! Foi... maravilhoso. - Ela estava atordoada pela intensidade da raiva de Brendan. - Sei que devia ter contado antes, mas...
- Acha mesmo? - interrompeu-a, com a voz carregada de sarcasmo. - Brink acha que eu sou um idiota. E eu acho que sou. Eu esperava honestidade da mulher de quem gosto...                                   
- Eu nunca menti para voc!
- Omisso  uma forma de mentira - retorquiu. - Voc me enganou. Propositalmente.
-- No foi de propsito. - Mas ela soubera que era errado esconder informaes dele. Sentia-se culpada, e um tom de desafio coloriu sua resposta. - Quando nos encontramos, eu no lhe devia nada alm de meu nome. E Lynne DeVane  o meu nome verdadeiro. - Ela estava lutando contra lgrimas de raiva diante de suas acusaes. - E, ento,  medida que comeamos a conhecer melhor um ao outro, eu apenas... apenas gostei de saber que voc gostava de mim pelo que sou, no porque era bacana estar com algum famosa.
- Isso parece sensato, mas ainda no explica por que voc no me contou. Eu a pedi em casamento! No lhe ocorreu que talvez eu devesse saber com quem estou realmente firmando um compromisso?
Ao terminar a frase ele j estava gritando, e ela recuou, cruzando os braos para abraar a si mesma, como se tentando manter-se ntegra ao ver desmoronar os sonhos que nutria desde que conhecera aquele homem.
- Voc pensa que sabe tudo, sr. Perfeio - disse ela, soluando. - Mas permita que eu lhe conte como  a vida de uma top model. Voc no pode sair de casa sem ser seguida por gente fazendo perguntas e batendo fotos. Voc nunca sabe se as pessoas que conhece so genunas ou se elas querem apenas se aproximar de voc para usufruir um pouco de seu glamour. Seu empresrio vigia tudo que voc come e voc precisa se cuidar para no acabar fazendo o que trs quartos das suas colegas fazem, que  comer como loucas e depois vomitar, ou, ento, passar fome porque todos acham que voc est gorda. Cafajestes convidam voc para sair porque acham que por voc ser uma celebridade no tem nenhuma moral e vai se drogar e fazer sexo com eles. E, s vezes, um deles  doce e gentil com voc, e voc realmente acha que esse cara  diferente... - Ela teve de conter mais um soluo. - ... e ento voc descobre que ele no  nem um pouco diferente, que apenas a quer porque estar com voc  uma forma de autopromoo. - Ela cutucou Brendan com um dedo. - Nunca ouse julgar meus motivos para tentar me manter incgnita.
Ela passou por ele, com cuidado para no toc-lo, e estendeu a mo at a maaneta. Virando-se para ele, Lynne acrescentou:
- Achei que voc era diferente. Achei que voc me amasse por quem eu era, no pelo que eu era.
- E eu amava!
- Ento repita isso at se convencer. Porque para mim voc  to ruim quanto Jeremy, mesmo que de uma forma diferente. Ele me queria pelo que eu era. Voc no me quer pelo mesmo motivo. Agora, saia daqui.
- Lynne...
- Saia!
Ela no conseguia parar de chorar. Passou a noite inteira chorando, at que, com o raiar do dia, finalmente desistiu de tentar dormir e se levantou. Caminhou de um lado para outro pelo apartamento, seguida ansiosamente por Feather.
s sete e meia, a realidade a atingiu com a fora de um golpe no estmago. Estava terminado. No haveria retorno das palavras zangadas que ela e Brendan haviam trocado na noite anterior. O que ela ia fazer? Como ela conseguiria continuar sendo vizinha de porta dele, encontrar-se casualmente com ele quase todos os dias? Como ela iria suportar saber o que ele pensava dela?
A resposta  ltima pergunta era clara: no iria suportar. Pelo menos, no se ela tivesse de enfrentar seu escrnio. Quanto a isso, ela podia fazer algo.
Voltou ao quarto e pegou uma, mala maior que a que levara at o hospital em que seu pai fora internado. Ps-se a jogar aleatoriamente diversas peas de roupa que iriam mant-la por uma semana ou mais. Ela iria entrar em contato com a corretora que lhe alugara o apartamento e providenciaria uma sublocao. Ficaria na casa de CeCe por mais alguns dias enquanto decidia o que fazer em seguida. S tinha certeza de que no poderia permanecer em Gettysburg.
Devia ter adivinhado que isto aconteceria quando Brendan lhe contara os verdadeiros motivos do fim de seu relacionamento anterior. Em vez de ser largado, fora Brendan quem largara a noiva - e por uma presuno estpida de que ele no era bom o bastante para ter uma esposa capaz de enxergar. Brendan garantira ter superado isso, e ela acreditara nele.
Mas Brendan cometera outra presuno estpida a respeito de seus "motivos" para se envolver com ele, uma presuno que demonstrava que suas incertezas existiam. Como o fato dele no enxergar no tivera nenhuma relao com seus motivos para no lhe contar nada sobre sua carreira passada. Se ele pudesse enxergar e no tivesse descoberto, Lynne teria feito exatamente a mesma coisa. Talvez ela realmente o tivesse enganado, mas no o fizera com m inteno.
Mas que droga, ela o amava! Raiva e desespero deram impulso aos seus atos, e a mala foi entupida em poucos instantes. Fechou a tampa e pegou uma bolsinha de artigos de higiene pessoal.
Estava a meio caminho da porta quando se deu conta de que no poderia simplesmente deixar Feather ali.
E no podia lev-la consigo, deduziu. Feather no era dela.
Triste e zangada, afundou no sof e se curvou para abraar a cadela idosa.
- Sinto muito, menina - disse, acariciando as orelhas de Feather. - Sabe que sempre amarei voc. Mas preciso ir.
Ela esfregou a beirada sedosa das orelhas de Feather, lgrimas correndo por seu rosto. A nica coisa que podia fazer era deixar a porta destrancada e depois ligar para Brendan e lhe dizer para pegar Feather.
Ele ouviu a porta do apartamento de Lynne ser fechada e em seguida seus passos diminuram ao longo do corredor, mas Brendan estava zangado demais para conversar com ela por algum tempo.
E magoado. Ele podia admitir isso. Ela no confiara nele. Ele estivera disposto, at ansioso, a lhe dar seu corao, e ela no havia sentido a mesma coisa. Se esse fosse o caso, ela teria lhe contado tudo semanas atrs.
Quantas semanas atrs? No faz nem oito semanas que vocs se conhecem.
E nesse curto perodo de tempo ele se apaixonara perdidamente. Para algum que vivera uma deslumbrante vida anterior, Lynne era notavelmente humilde. Seus gostos eram simples, seus desejos, escassos. Era modesta em vez de arrogante, e ansiava por amor em vez de adulao.
Muito bem, ele tivera uma top model cuidando de sua cachorra. Era difcil at de compreender, Embora ele estivesse em paz com sua perda de viso, de vez em quando lamentava amargamente no poder enxergar. Este era um desses momentos. Talvez, se ele pudesse ver Lynne, compar-la com a foto naquela revista...
Por qu? Para voc ter prova de que ela  algum diferente?
Diferente na superfcie, talvez, mas o fato era que ela abandonara esse estilo de vida e escolhera este - escolhera ele - falava muito a respeito de sua personalidade.
O telefone tocou. Ele se levantou abruptamente para atender, desejando que fosse ela.
- Al?
- Brendan. Voc precisa atravessar o corredor e pegar Feather. Deixei minha porta destrancada. Os brinquedos, a coleira e a tigela esto em uma bolsa no balco da cozinha.
- Lynne, voc no precisa me devolver a...
- No vou morar mais aqui. Sinto muito, mas no poderei cuidar dela para voc. - Ela acrescentou antes que ele pudesse reagir: - Gostei muito de ficar com ela. Obrigada por isso. Adeus.
E no instante seguinte tudo que ele estava ouvindo era um sinal de ocupado. Ela havia partido! Ela o deixara de vez. Mudara-se. Bem, obviamente ela ainda no se mudara, mas pretendia fazer isso.
Ele afundou no sof com a cabea nas mos, raiva subitamente esquecida diante da deciso no tom da voz de Lynne.
Meu Deus, o que ele havia feito?
Nos primeiros dois dias ele deixou nove recados no celular de Lynne, mas ela no ligou de volta. Ele estava em pnico, imaginando que talvez a sade do pai dela tivesse piorado, ou que talvez ela o estivesse evitando por estar muito magoada.
A tera-feira se arrastou e, ento, a quarta e a quinta.
Na sexta-feira ele comeou a duvidar que ela voltasse. O fim de semana foi envolto numa nvoa de tristeza. E raiva... raiva de si mesmo. Ele no devia ter permitido seu comportamento ser ditado por uma reao impulsiva. Ele fora treinado para parar e pensar completamente antes de agir.
Como pudera ser to estpido?
Eu achei que voc me amava por quem eu era, no pelo que eu era.
Era engraado como isso fazia sentido agora que ele havia superado a mgoa e a raiva iniciais. Precisava haver uma maneira de falar com ela. De fazer com que entendesse que ele estava arrependido pelas coisas que dissera. Mas... para um advogado que passara no exame da Ordem com uma das notas mais altas do estado, ele se sentia completamente desorientado. At agora no tivera uma nica idia vivel para fazer com que Lynne falasse de novo com ele.
Amanh de segunda-feira se arrastou. Ele passara em casa na hora do almoo para deixar Feather sair, mas Lynne ainda no voltara para o apartamento. Ele saberia disso no instante em que ela chegasse. Tudo que ele precisava fazer era se manter atento para sua cadela. Jamais vira Feather to arrasada. Feather ficara deprimida e irritada ao ser aposentada e substituda por um novo cachorro, mas agora seu comportamento era to diferente que ele estava realmente preocupado. Ela nem se levantava mais quando ele chegava em casa. Ontem ele a levara ao veterinrio porque a cadela comera to pouco nos ltimos dias que estava perdendo peso.
Ele destrancou a porta e entrou no apartamento.
- Feather - chamou. - Ei, menina. Onde voc est? - Nenhum som traiu sua presena. - Feather?
- Ele chamou seu nome quatro vezes, antes de escutar um profundo suspiro canino e o som de suas patas arrastando-se pelo cho para ele. A tristeza de Feather atingiu Brendan quase como um golpe fsico. Ela era uma golden retriever, raa que praticamente era listada no dicionrio como sinnimo para saltitante. Mas nos ltimos dias ela no demonstrara nenhum sinal de energia.
- Sinto muito, Feather. - Ele se ajoelhou, e quando a cabea da cadela veio descansar em seu peito, massageou suas orelhas sedosas. Ele no chorava desde que era criana, mas o sofrimento palpvel de sua amada e velha parceira fez lgrimas correrem por sua face. - Tambm a quero de volta - sussurrou.
Subitamente, com a energia que Feather no demonstrara nos ltimos dias, a cadela recuou e se afastou dele. Brendan ouviu suas unhas clicarem freneticamente pelo cho at a porta, e ento comear a latir. Cedar seguiu-a, menos empolgado, mas interessado no que a deixara to animada.
A esperana cresceu no peito de Brendan.
Feather agia dessa forma quando Brink estava por perto, mas talvez... Ele correu atrs dela, calculou errado a distncia at a porta e bateu contra ela.
Ele espalmou uma das mos na madeira segundos antes de seu nariz encontrar com ela. Um estrondo soou quando a porta estremeceu.
Droga! Por um momento ele quase torceu para ser Brink, porque assim Lynne no o pegaria fazendo papel de bobo.
- Brendan? Voc est bem?
A voz de Lynne! Seus joelhos tremeram subitamente como se estivessem prestes a desmoronar, e uma sensao de alvio profundo o tomou enquanto ele abria abruptamente a porta e saa para o corredor logo atrs de Feather. Cedar, agitado com o quase acidente, manteve-se bem perto dele.
- Oi - disse Brendan, tentando parecer casual, mas temendo ter fracassado miseravelmente. - Estou bem. Estou feliz por voc estar de volta.
Houve um silncio tenso.
- No vou ficar - disse num tom desanimado. - Vim apenas pegar algumas coisas importantes que eu no gostaria que os homens da mudana danificassem.
Brendan ouviu-a ajoelhar-se, e quando Feather acalmou-se compreendeu que Lynne estava fazendo carinho nela.
- Os homens da mudana?
- Viro na sexta-feira.
- Sexta. - Ele teve a impresso de que as palavras estavam quicando na superfcie de seu crebro, incompreensveis.
- Esta sexta?
- Sim. - Ele mal podia ouvi-la.
- Mas... voc no pode se mudar.
Mais silncio. Ele esperou, aguardando por uma resposta, qualquer resposta. Mas ela no deu nenhuma.
- Por favor, entre e venha ver Feather. - Ele no se importava se parecia desesperado. - Ela no est comendo bem. Sente falta de voc. 
Lynne ajoelhou-se no cho, esfregando as orelhas sedosas de Feather, repousando a testa contra a da velha cadela.
- Voc  uma boa menina - disse a ela em voz baixa. - Pare com essa mania de escolher comida. E seja boazinha com Cedar. - A voz de Lynne embargou, e teve de pigarrear enquanto se levantava.
- No, obrigada. Tenho muito a fazer.
Esta provavelmente seria a ltima vez que ela veria Brendan, e ela devorou com os olhos suas feies, desejando que houvesse uma maneira de voltar dois meses no passado e comear tudo de novo.
- Lynne, eu sinto muito. - Ele abaixou a cabea, no permitindo que ela lesse perfeitamente sua expresso. Ela piscou, incerta se ouvira corretamente. Sentia muito pelo qu? - Eu sei que provavelmente isso no vai mudar nada, mas quero que saiba que eu estou realmente arrependido. No tinha o direito de julgar voc sem perguntar por que sentia a necessidade de ser annima.
Ela engoliu em seco, to sufocada que mal conseguiu falar.
- Talvez no. Mas eu errei ao enganar voc, e tambm peo desculpas por isso. - Vendo-se incapaz de agentar mais um minuto sequer de arrependimento educado e sincero, ela se virou para a porta. -Adeus, Brendan.
- Para onde est indo? - Ele estava de p entre ela e a porta do apartamento, e no se moveu.
- J lhe disse que estou me mudando. O proprietrio vai sublocar meu apartamento pelo restante do meu contrato. - Ela tentou sorrir. - Pedi a ele que se certificasse de que ser algum que adore cachorros.
Brendan deu um passo para a frente e ela se moveu para o lado para que ele pudesse passar por ela. Em vez disso, com a estranha intuio que ela observara antes, Brendan estendeu os braos diretamente at ela. Ele deslizou as mos pelos braos de Lynne. Ele segurou as mos de Lynne e os dois entrelaaram os dedos.
- No v.
- Eu preciso. - No conseguia conter as lgrimas.
- No. Voc no precisa.
Brendan a abraou, e ela queria tanto estar aninhada em seu corpo que no se debateu.
- Eu preciso - disse ela. Atirando o orgulho ao vento, ela chorou. - No posso ficar aqui. No sou forte o bastante para ajudar voc com Feather, ver voc todos os dias, viver do outro lado do corredor e jamais poder estar com voc de novo. - Ela se soltou dos seus braos. - Agradeo suas desculpas, e sempre vou querer ter agido de outra maneira, mas...
Ele mais uma vez a envolveu em seus braos. Abaixando a cabea, cobriu os lbios de Lynne com os dele, abafando seus protestos. Ele a beijou como sempre a beijava, explorando-a e devorando-a, provocando uma reao indefesa at que ela levantasse os  braos para segurar delicadamente a parte de trs de seu pescoo, beijando-o em resposta, sem dar ouvidos a sua racionalidade.                                                  
Quando finalmente afastou os lbios dos de Lynne, foi apenas para transferir a boca para o pescoo  dela.                                                                      
- Faa amor comigo - disse contra sua pele.
- No. - Ela se debateu novamente, desesperada para se afastar antes de se dissolver completamente em lgrimas. Ele estava gostando de tornar isso ainda mais difcil?
- Por que no? - Ele era implacvel. - Seria exatamente isso: fazer amor. Eu amo voc, Lynne. - Seu tom ficou mais ardoroso. - E sei que voc me ama. Eu estava errado. A mulher por quem me apaixonei no  diferente da mulher que voc foi por toda a vida. Se eu aprendi alguma coisa, foi isso.
Ela mordeu o lbio. Queria acreditar nele, queria extravasar toda a tristeza e dor de cabea dos ltimos dias, mas...
- Eu amo voc. - Ela pigarreou. - Mas, Brendan, eu no posso mudar meu passado. Vou ser sempre uma top model.
- Voc ainda quer ser uma? Porque, se quiser, ou se decidir que gostaria de retornar, vou apoiar sua deciso.
- No! - Esta era a nica coisa da qual tinha certeza. - Eu s quero ser uma pessoa normal, com uma vida normal.
- Certo. Podemos fazer isso. - Ele levantou uma das mos e a colocou em concha em sua face, e ela sentiu suas dvidas comeando a se esvair. - Quero fazer voc feliz, querida. E eu no acho que voc vai ser feliz se me deixar.
-  Eu tambm acho - confessou. - Mas voc pode realmente ser feliz comigo agora que sabe que eu no sou apenas a garota do apartamento da frente?
-  Sem nenhum problema. - Ele a puxou para si novamente, seu corpanzil quente e slido contra o dela. - De qualquer modo, no quero que voc seja a garota do apartamento da frente. Quero que voc seja minha esposa.
Lgrimas arderam em seus olhos.
- Eu quero isso, tambm. Tem certeza?
Ele sorriu ao segurar a mo de Lynne e conduzi-la ao seu apartamento.
- Tenho uma coisa para voc. Eu ia esperar at a manh de Natal, mas agora mudei de idia.
Ela permitiu que ele a sentasse no sof e, ento, o observou caminhar at o quarto e retornar com uma caixinha embrulhada em papel prateado e amarrado com um lao vermelho. O corao de Lynne se encheu de esperana.
Sentando ao lado dela, Brendan segurou sua mo e virou sua palma para cima. E pousou nela a caixinha.
- Abra.
- Agora? Ainda no embrulhei os seus presentes. Ela queria muito abrir a caixinha, mas suas mos tremiam. Lynne pressionou a caixinha firmemente.
- Depois do jeito com que me comportei, o nico presente que quero  voc - disse Brendan. Ele desceu do sof, apoiou um joelho no cho e tomou as mos de Lynne entre as suas. - Eu j lhe pedi para se casar comigo uma vez, mas estou perguntando novamente. Casa comigo?
Pela primeira vez em dias ela sentiu uma fagulha de felicidade.
- Brendan, voc tem certeza?
- Absoluta. No h nada que voc possa me dizer que me faa mudar de idia. Eu j aprendi do jeito difcil que ter voc em minha vida  mais importante do que qualquer coisa que possa se colocar entre ns.
- Voc no se incomoda que eu seja financeiramente independente? - Era melhor expor todos os problemas agora, para que eles no corressem o risco de desabarem sobre eles depois.
Quando ele resfolegou, Lynne entendeu que no tinha nenhum motivo para se preocupar.
- Quer dizer, se eu acho que a minha masculinidade est ameaada? No. Contanto que voc no possa correr mais rpido ou pular mais alto do que eu. Isso realmente iria me deixar chateado.
- Voc no est em perigo. - A felicidade permitiu que ela respondesse no mesmo tom brincalho. - Educao fsica no era o meu forte na escola. Eu agora corro para me manter em forma, mas no h velocidade envolvida na atividade. E eu, certamente, no salto.
- Ento est tudo bem. - Ele apertou levemente as mos dela. - Ento abra isso.
Ela respirou fundo.
- Certo. - Ela puxou a fita e cuidadosamente retirou o papel, sem rasg-lo.
- O que voc est fazendo? - perguntou num tom impaciente. - No me diga que voc tem mania de poupar papel!
- Tenho, com toda certeza. Ele suspirou.
- Acorde-me quando estiver pronta para abrir a caixa.
Mas ela j havia retirado a caixinha de jias da caixa quadrada e branca, e ao ouvi-la abrir a tampa, ele imediatamente levantou a cabea.
Ele no se moveu... e ela tambm no. Finalmente ele disse:
- E ento? - Havia incerteza em sua voz novamente.
- ... incrvel - ela respondeu, numa voz esganiada.
E era.
- Gostou? Eu disse ao joalheiro o que queria e ele me ajudou com os detalhes.
- Eu amei - disse fervorosamente. - Ele tem um diamante enorme no centro com dois menores em cada lado. Alm disso, o aro  incrustado com pedrinhas. No posso descrever a luz que ele irradia.
Ele apanhou a caixa e removeu o anel. Em seguida, segurou a mo esquerda de Lynne e pegou seu dedo anelar.
Deslizou o anel at posicion-lo e perguntou:
- Coube direitinho?
- Est perfeito! - Ela estendeu a mo, incapaz de acreditar que estava usando um anel to lindo.
- Bom - disse ele - vai combinar com minha esposa perfeita.
- Eu tambm amo voc. - Ela riu. - Xi... tenho expectativas altas a cumprir!
- Voc no ter a menor dificuldade. - Ele fez uma pausa, e ento a puxou para seus braos. - Eu amo voc, querida. O dia em que tropecei nas suas caixas foi o melhor da minha vida.
Ela riu, e seus lbios tocaram levemente o rosto dele.
- Pense na histria que teremos para contar quando nossos filhos perguntarem como nos conhecemos.
- Nossos filhos. Gosto do som disso. - Ele se levantou, levando-a junto. Entrelaou os dedos de Lynne nos seus. - Acho que devemos comear.
- A contar a histria?
- No. - Ele a puxou para si, encaixando seu corpo rijo na suavidade do corpo de Lynne. - A fazer os filhos.                                                            
- Brendan! Ainda nem estamos casados!
- E da? Devamos praticar. Precisamos ter certeza de que vamos fazer direito.
E enquanto as mos de Brendan deslizavam por baixo do suter de Lynne em busca da pele macia e quente que ele escondia, ela desatou a gravata dele e comeou a abrir os botes de sua camisa.
-  Concordo. Vamos treinar bastante para fazer tudo direitinho.

                                       

FIM





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